|
Camila Lucchesi
Em 3 de dezembro comemora-se o Dia Internacional do Deficiente Físico. Mas a pergunta é: o que eles têm para comemorar? No que se refere ao turismo em território nacional, as conquistas ainda são pequenas. A boa notícia é que, com ações isoladas, o setor turístico começou a acordar para essa parcela significativa da população, que concentra quase 25 milhões de pessoas segundo o censo do IBGE de 2000. O número é ainda maior se somarmos as pessoas com mobilidade reduzida, como idosos, gestantes e mães com carrinhos de bebê.
O primeiro grande passo foi dado pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) ao colocar o tema como a grande bandeira da entidade para os próximos anos. Na abertura do Congresso Nacional de Hotéis, no último mês de agosto, a ABIH defendeu o respeito às diferenças e a necessidade de inclusão social de uma forma simples: divulgou as iniciativas que vêm sendo desenvolvidas pelo país e colocou os próprios deficientes na linha de frente do cerimonial. “A intenção era despertar a consciência nacional”, resumiu Eraldo Alves da Cruz, então presidente da entidade. A resposta positiva foi imediata, e no dia seguinte a ministra do Turismo, Marta Suplicy, já sinalizava a possibilidade de incorporar mais projetos facilitadores voltados a esse público.
O ministério já caminhava nesse sentido desde 2006, quando lançou o manual Turismo e Acessibilidade. Reproduzido a partir de um modelo anterior editado pela Embratur, o material apresenta orientações e parâmetros sobre temas relativos à acessibilidade para utilização por parte dos destinos e equipamentos turísticos. Entretanto, para Cruz, esse tipo de apoio ainda é insuficiente. “Existem muitos manuais, mas as normas são muito específicas, precisamos facilitá-las para incentivar os meios de hospedagem a colocá-las em prática.”
Segundo ele, a ABIH está em negociação com o Ministério para a implantação de um plano que ajude o pequeno empreendedor a adaptar seu hotel sem ter gastos excessivos ou dores de cabeça. Por exemplo, substituindo a barra de inox por uma de madeira ou o apoio de pé de metal por um banco de plástico – obviamente levando em consideração o objetivo do equipamento e tendo certeza de seu pleno funcionamento. “Se ficarmos dependentes da busca de aparelhamento estaremos sempre reduzidos a um universo muito pequeno”, alerta.
O problema é que executar todas as mudanças necessárias torna-se um trabalho hercúleo quando pensamos nas dimensões continentais do país. “Mas ganhamos terreno com a conscientização gradual da importância dessas ações”, define Cruz. A chave para o êxito nessa empreitada já foi encontrada por alguns integrantes do trade turístico: capacitação.
Experiências que dão certo
Quando questionados sobre o assunto, praticamente todos os hotéis informam que dispõem de apartamentos e áreas sociais adaptadas, mas muitos não vão além do básico. Outros, porém, trabalham a raiz do problema. É o caso da bandeira Marriott, que trouxe o conceito de trabalhar a diversidade da matriz norte-americana. “Faltam sensibilidade por parte de quem atende o deficiente e consciência por parte de quem não o emprega. Devemos ter em mente que ele pode ser tão ou mais produtivo do que uma pessoa considerada ‘normal’”, afirma a gerente de Recursos Humanos da rede no Brasil, Veridiana Fernandes. Ela conta que todos os gerentes das unidades brasileiras passaram por treinamento de Libras, a linguagem brasileira dos sinais, para que possam atender também aos deficientes auditivos.
Outro exemplo é a rede Othon e, mais especificamente, o Othon Rio Palace. Além de quartos e banheiros adaptados, cardápios em braille, cumprimento da cota de contratação – contando hoje com mais de 60 colaboradores deficientes – e capacitação de funcionários, o hotel recebeu da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro o selo Acessibilidade Nota 10 – Categoria Ouro, atestando a promoção total de acessibilidade. A categoria Diamante requer adaptação também nos meios de comunicação da empresa, como sites e revistas, mas ainda não foi entregue a nenhuma instituição. “Quando pensamos em deficiente, logo nos vem à cabeça o cadeirante. Entretanto, há muito mais pessoas com deficiência visual, que acabam esquecidas nesse processo de adaptação”, conta Rossana Marafon Schneider, gerente de desenvolvimento e qualidade dos hotéis Othon.
Em parceria com a Fundação Pestalozzi e com o apoio da ABIH-RJ, o hotel estudou a hotelaria carioca com foco no atendimento ao hóspede deficiente. Depois de visitar os meios de hospedagem da Cidade Maravilhosa, foi elaborada uma proposta de capacitação dos funcionários para melhorar o atendimento prestado. “Muitas vezes as ações são simples, como treinar a camareira a não mudar de lugar as roupas e os utensílios de um deficiente visual, por exemplo”, diz. Ela ainda sugere que as empresas de amenities produzam os cosméticos em embalagens diferenciadas para ajudar na identificação.
Na capital paulista, o Holiday Inn Parque Anhembi é outro daqueles que se destacam por ultrapassar a barreira do trivial “porta-mais-larga-e-barra-de-apoio-no-banheiro”. Além de toda a parte estrutural, conta com sonorização nos elevadores, para guiar deficientes auditivos, sinalização em braille e treinamento para todo o front desk conferido pela Confederação Brasileira de Desportos para Cegos. Não foi à toa que, em 2007, o empreendimento foi escolhido como o hotel oficial dos Jogos Mundiais da International Blind Sports Federation (IBSA), que aconteceram entre julho e agosto.
Pelo direito de viajar
As operadoras também buscam incluir os deficientes em seus pacotes, na medida do possível. Mas algumas empresas levam a missão a sério, e a Cia. Nacional de Ecoturismo é uma delas. A diretora Denise Santiago defende que, em certos destinos, não existe diferença entre os turistas nas atividades, contanto que sejam tomados certos cuidados com os deficientes. “Os traslados para os passeios, por exemplo, são realizados até locais bem próximos aos atrativos e com o auxílio dos guias durante a permanência nos passeios. Tudo é feito com muito cuidado e carinho, sempre mantendo o espírito de aventura, integração e motivação”, diz. Ela acredita que a procura ainda é pequena por dois fatores: desconhecimento e falta de investimento e prioridade por parte dos meios de hospedagem. “Esse fato deve mudar nos próximos anos, já que o governo tem insistido nessa preocupação. Seria muito importante facilitar as linhas de crédito, principalmente no que diz respeito à infra-estrutura. Dessa forma, as mudanças e adaptações poderiam ser feitas rapidamente”, sugere. A acessibilidade é tão importante para a FreeWay que a empresa criou um departamento exclusivo para cuidar desses assuntos, o FreeWay Acessível. Edgar Werblowsky, diretor da operadora, concorda com Denise quanto à baixa procura, resultado da insegurança das famílias em confiar em equipamentos e profissionais, mas insiste nesse mercado. Desde 2004, oferece roteiros adaptados para Fernando de Noronha (PE), Itacaré (BA), Bonito e Pantanal (MS). “Os roteiros foram planejados e testados por cadeirantes acompanhados por uma médica fisiatra. Utilizamos um número maior de guias capacitados e equipamentos desenvolvidos especialmente para esse público”, conta Werblowsky. Iniciativas isoladas podem ser vistas por todo o Brasil. Em Canela (RS), a prefeitura implantou dois telefones públicos para pessoas com deficiência auditiva. Em Bento Gonçalves (RS), o Ristorante Don Ziero disponibiliza cardápio em braille e um elevador de acesso para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. As locadoras de veículos Mobility e Hertz oferecem veículos adaptados, mediante solicitação antecipada. A cidade de São Paulo também vem se adequando, sendo que o passo mais importante foi a aplicação do Decreto 45.904/05, que regulamenta o passeio público. A quebradeira nas calçadas, que pareceu tortura para muitos paulistanos, foi o início de um grande projeto encabeçado pela Secretaria Especial da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (Seped). Segundo o secretário da Seped, Renato Corrêa Baena, a cidade foi mapeada e os pontos com maior fluxo foram priorizados para a criação do que ele chama de “ilhas de acessibilidade”. Pólos turísticos ou de compras como a Avenida Paulista e a Rua Teodoro Sampaio tiveram as calçadas reformadas para facilitar o acesso para pessoas com ou sem deficiência. As obras, aliadas à ampliação do atendimento no transporte público, permitem que o morador ou turista trafegue por toda a cidade sem problemas. Sede anual do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, o Autódromo de Interlagos também passou por transformações neste ano. As reformas incluíram elevadores de acesso às arquibancadas, banheiros adaptados, assentos para pessoas obesas e com mobilidade reduzida e 36 lugares reservados para cadeirantes. Anteriormente, havia uma área exclusiva para os deficientes, o que ajuda a disseminar o preconceito. “O projeto teve a SPTuris como parceira e a idéia é continuar com as melhorias gradualmente para os próximos anos”, afirma o secretário.
Deficiente e radical
“Gosto muito de esportes radicais, mas me deu um frio na barriga antes de chegar ao rio”, conta o paratleta André Cruz. Amputado do pé direito, ele praticou rafting e canyoning pela primeira vez com a equipe da EcoAção, em Brotas (SP), e hoje recomenda a experiência a outros deficientes. A empresa nasceu adaptada aos deficientes porque, segundo a diretora de comunicação, Giovana Guedes, acredita nesse mercado. “Infelizmente a procura não é grande. Eles ainda não possuem consciência de que podem praticar todos os passeios com segurança”, lamenta.
A Alaya Expedições, outra operadora de esportes de aventura na cidade paulista, também aposta nesse público. Segundo Luiza César, representante da empresa em um projeto específico para esse público, os condutores passaram por um treinamento com fisioterapeutas e profissionais de educação física que incluiu atividades práticas, como “descer” o rio vendado para entender as limitações de um deficiente visual. O processo é longo, e até 2008 a empresa estará pronta para atender pessoas com qualquer tipo de deficiência.
O segmento de aventura parece ser o mais adaptado no Brasil. Prova disso foi a aposta do Ministério do Turismo no projeto Aventureiros Especiais, dirigido pela ONG Aventura Especial, em implantação na cidade de Socorro (SP). “O tema da acessibilidade é transversal, então não importa se trabalhamos primeiramente com aventura ou com cultura. As ações valem para qualquer segmento”, explica a coordenadora de segmentação do MTur, Jurema Monteiro. Segundo ela, foram investidos R$ 418 mil no projeto que visa a transformar a cidade no primeiro destino totalmente adaptado do país, com a adesão dos meios de hospedagem e demais equipamentos turísticos. Segundo ela, a experiência de Socorro será multiplicada por todo o Brasil.
|
Calçada viva
Seguindo a recomendação do decreto, o arquiteto paisagista Benedito Abbud sugeriu um novo conceito de calçada para São Paulo durante a edição 2006 da Casa Cor. Batizada de calçada viva, a estrutura pretende resgatar o hábito de andar na calçada com conforto, praticidade e segurança. Trata-se da integração de sete itens: calçadas verdes, ecológicas, acessíveis, inteligentes, culturais, mobiliadas e saudáveis. No quesito acessibilidade, a calçada atende aos padrões internacionais e à norma NBR9050, elaborada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas: possui equipamentos de segurança como piso tátil de alerta e direcional, rampa de acesso em material antiderrapante e sinalização em todos os elementos verticais, como orelhões e postes. “Além de acessível, a calçada tem a cor verde, o que ajuda a diminuir as ilhas de calor nas cidades”, revela Abbud. Outra vantagem é a utilização do piso drenante, que pode minimizar o problema de enchentes na metrópole. |
 |
Crédito: Divulgação |
|
|