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Sergio Adeodato
Por entre canaviais e praias de águas mornas e cristalinas, um pedaço do litoral de Pernambuco, no município do Cabo de Santo Agostinho, a 33 quilômetros de Recife, é hoje palco de ações para evitar os impactos do turismo predatório. “Preparamos o lugar para viver uma nova realidade”, afirma Cássio Garkalns, doutorando em desenvolvimento local. Ele conduz, naquela região, os trabalhos do Instituto de Hospitalidade (IH) – instituição sem fins lucrativos que chega aos dez anos de vida como referência brasileira para o turismo indutor do desenvolvimento sustentável e da inclusão social. O centro das atenções, no caso pernambucano, é o entorno da Reserva do Paiva, complexo turístico do Grupo Brennand e da construtora Odebrecht. Planejado para ser o maior do país, com hotéis, condomínios residenciais, centro de convenções, bares, restaurantes, hípica e campo de golfe de padrão internacional, o empreendimento exige cuidados para evitar danos ambientais e sociais.
O desafio, que coroa o aniversário do IH, não é pequeno. A obra absorverá investimento de R$ 1,6 bilhão e a estimativa é gerar, nessa primeira etapa já iniciada, 5,5 mil empregos diretos e indiretos. Desta vez, ao contrário de experiências desastrosas do passado, o lugar está sendo submetido a um amplo diagnóstico socioambiental antes de receber o primeiro tijolo. Objetivo: identificar vocações locais, integrar a população, qualificar profissionais, explorar os atrativos de uma maneira responsável e evitar que as promessas do turismo se tornem armadilhas. “Não podemos criar uma ilha da fantasia cercada de miséria por todos os lados”, constata Garkalns.
Nos dias atuais é inconcebível construir grandes hotéis, parques aquáticos, estradas, pontes e outras estruturas turísticas sem pensar nas conseqüências para o meio ambiente e para a população. E isso se deve, em grande parte, aos novos padrões cultivados no mercado pelo IH, que tem sede em Salvador, BA, e atua em todo o país para promover a educação como suporte ao turismo de qualidade. Valorizar as tradições culturais, os cenários naturais que embelezam e dão vida ao país e o peculiar jeito de ser e receber do brasileiro como ativos do turismo são pilares que sustentam os trabalhos da instituição desde o seu nascimento.
Aposta na qualidade Quatro de dezembro de 1997. A história começa no suntuoso salão de jantar do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, prédio do século 19 que acabara de ser revitalizado no centro histórico de Salvador. No cardápio, iguarias baianas. Sentados à mesa, 115 convivas de distintos sotaques -- lideranças da iniciativa privada, do poder público e dos diversos setores da sociedade. Eles brindavam a celebração de um pacto. Nas agendas, uma anotação comum: mudar o tom do turismo no Brasil.
“Ao longo de uma década, assentamos importantes alicerces para o setor”, constata Rafael Sanches, presidente do IH. Ele se refere a um diferencial que vai além das estatísticas: a qualidade. Muito se fala sobre a força do turismo para a economia mundial. No Brasil, terra de superlativos, não é diferente. Entre 1996 e 2006, o fluxo anual de visitantes estrangeiros pulou de 2,7 milhões para 5 milhões e as divisas por eles geradas saltaram de US$ 800 milhões para mais de US$ 4,3 bilhões, de acordo com as contas do governo federal. A matemática pode dizer muito – mas não tudo. Para fazer frente a essa explosão, prevista para continuar nos próximos anos, o IH prioriza a educação e a qualificação na busca por um turismo que respeita o meio ambiente e a diversidade cultural do país. E que ainda gera renda e abre um leque de perspectivas para as populações.
Educação, qualificação e respeito são questões de sobrevivência no longo prazo – tanto para os destinos turísticos como para os negócios e para o sustento de muitas famílias. “Como aconteceu com a cana-de-açúcar, o café e o ouro, o turismo é o mais recente ciclo econômico do país, que ainda está na fase embrionária e deve ser explorado de uma maneira virtuosa”, afirma Sanches.
Para dar suporte a um turismo diferenciado, o IH, ainda recém-nascido, começou a desenvolver conceitos, normas e padrões para promover e aferir a excelência nos serviços turísticos. Destaca-se a criação das primeiras normas técnicas para garantir a qualidade e a segurança do turismo de aventura e suas diversas modalidades – das escaladas às caminhadas em trilhas e vôos de asa-delta.
Também pioneiro, o Programa de Certificação da Qualidade Profissional para o Setor de Turismo, mantido pela instituição, estabeleceu 52 normas técnicas para avaliar as principais ocupações nessa cadeia produtiva. O modelo foi elaborado a partir de experiências internacionais, com aval do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Sebrae. E contribuiu para tornar a qualidade um diferencial competitivo no mercado. Com base nesses critérios, mais de 30 mil profissionais foram avaliados no país até o momento.
Em paralelo, o programa Trilha Jovem, voltado para a inserção de novos profissionais no mercado, também trouxe inovação. Optou por capacitar pessoas de baixa renda para a vida – e não apenas para desempenhar funções no mercado de trabalho. Noções de saúde e cidadania, por exemplo, se misturam a aprendizados mais específicos, como as técnicas para emitir passagens ou para servir em restaurantes. Lançado em 2004, o programa beneficiou até hoje 2,4 mil jovens de 16 a 24 anos de Salvador e da vizinha Costa dos Coqueiros, no litoral norte baiano, e também do Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Porto Alegre, Belo Horizonte e São Paulo. Mais 2 mil serão atingidos nos próximos meses em Fortaleza, Campo Grande, Manaus, São Luís e Brasília. “É gratificante ver alguns desses jovens hoje em franca ascensão profissional, assumindo cargos de supervisão e formando novos colegas de trabalho”, diz Mariah Oliveira, coordenadora do programa.
“O caminho agora é certificar a qualidade não apenas de pessoas e estabelecimentos, como também de destinos turísticos”, avalia Sérgio Foguel, fundador e presidente do IH até 2005. Ele conta como nasceu o ideário que deu origem à instituição: “À frente da Fundação Odebrecht, quando trabalhávamos para inserir jovens na vida profissional na Costa do Descobrimento, região de Porto Seguro, BA, descobrimos a importância da educação e da cultura para promover o desenvolvimento sustentável”.
A importância da dimensão humana “A grande sacada foi associar essa visão ao turismo”, diz Foguel. De fato, após a criação do IH, novas palavras ganharam força no vocabulário do setor. Além da qualidade e da sustentabilidade, outros termos de igual sufixo passaram a ser valorizados: a diversidade, a peculiaridade, a singularidade, a brasilidade. Eles rimam e dão significado a uma expressão-chave para o turismo sustentável: a cultura brasileira da hospitalidade. Que traços têm o Brasil e os brasileiros que chamam a atenção por serem tão diferentes? Como a descontração, a cordialidade, a alegria e outras características do nosso modo de ser podem cativar visitantes, transformar destinos e abrir novas perspectivas de vida para a população?
No Brasil, onde é grande a variedade de culturas e paisagens naturais, o potencial é expressivo. Para transformá-lo em realidade, o Movimento Brasil de Turismo e Cultura, conduzido pelo IH, despertou populações locais para o crescimento econômico a partir de suas vocações singulares. Mobilizar lideranças, qualificar pessoas, planejar e atingir uma governança integradora são motores desse movimento que em três anos atingiu 12 destinos, como Diamantina (MG), Bonito (MS) e Santa Tereza (RS). As ações seguem uma metodologia, desenvolvida pela instituição, que resgata e fortalece as manifestações culturais brasileiras, estimula a preservação da biodiversidade, favorece a inclusão social e potencializa pequenos negócios no setor de turismo.
Cria-se também um ambiente favorável à paz – outra palavra que começa a entrar para o jargão turístico. “O turismo pode estimular a tolerância e o convívio harmonioso entre os povos”, explica Foguel, hoje presidente do Fórum Mundial de Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável, lançado em 2003 por conseqüência do trabalho do IH. A proposta é multiplicar esses ideais a partir de encontros anuais para a troca de experiências e de uma atuação em rede – um acervo que hoje inclui mais de 300 iniciativas conduzidas em dezenas de países.
Ao festejar o aniversário, o IH dá uma pausa para o balanço. E recobra energias, porque o caminho é longo. A base, nessa primeira década de vida, está construída. “O turismo deu uma grande virada, ao trocar o foco da quantidade pela qualidade”, avalia Silvestre Teixeira, consultor do IH. Ele constata: “Essa nova perspectiva hoje influencia os planos de governo para o setor”. São conquistas, embora silenciosas, que estão mudando padrões e atitudes na oferta e no consumo desses serviços. Ganham a cultura, o meio ambiente e as populações, que têm no turismo a principal fonte de renda. Melhor também para os negócios, que se tornam sustentáveis no longo prazo. É certo que falta muito para atingir o ideal. Mas já há bons motivos para comemorar. O bolo está na mesa. Acendam as velas.
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