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Lá Fora
Caminho de Abraão, um ponto de partida


Turismo como instrumento de paz: o caminho se utiliza da força simbólica de Abraão para cristãos, judeus e muçulmanos como argumento para evitar eventuais disputas religiosas e promover uma rota de paz entre os povos

Crédito: Divulgação

Movimento internacional propõe projeto de turismo sustentável como caminho para a paz no Oriente Médio

Inês Godinho

Sempre surpreendente para os estrangeiros, a convivência harmoniosa que as comunidades muçulmana, judaica e cristã-libanesa estabeleceram no Brasil ganhou um inesperado destaque em setembro último. Os idealizadores do projeto Caminho de Abraão, iniciativa internacional que alinha ações diplomáticas, econômicas e sociais no Oriente Médio, estiveram em São Paulo para lançar a primeira representação fora dos países diretamente envolvidos. O evento – que reuniu empresários e lideranças políticas e culturais -- também teve um caráter simbólico, pois marcava o início da segunda fase do empreendimento, deslanchado há quatro anos. O que começou aos olhos de muitos como um sonho vem despertando doses igualmente grandiosas de entusiasmo e ceticismo por onde é anunciado. Daí a importância do Brasil – um exemplo possível.

Iniciado em 2004, sob a liderança da Universidade de Harvard, o projeto encontrou na figura inspiradora do patriarca Abraão o ponto comum entre as três comunidades monoteístas e a capacidade de catalisar e transmitir um sopro de esperança a um conflito que tem se mostrado insolúvel. Em entrevista a jornalistas brasileiros, o homem de cujo cérebro brotou a idéia, o professor William Ury, explicou o quanto espera do país: “O processo de paz precisa de algo novo e inesperado, e esse fator pode ser o Brasil. Ao contrário dos Estados Unidos e da Europa, o país é respeitado no Oriente Médio. Além disso, é um exemplo de como as comunidades podem conviver”.

A receita do bolo

Por trás da iniciativa, há uma palavra mágica – turismo. Ury vislumbrou na atividade turística construída de forma sustentável o fator de consenso necessário para convergir os interesses econômicos e políticos dos países da região. Cuidadosa, a equipe do projeto deixa claro que não subestima a realidade política nem o fator tempo. Nos materiais de divulgação, o conceito dominante é “facilitar a implementação de uma rota turística no Oriente Médio”. Ao escolher um caminho alternativo, o grupo apostou na capacidade que o turismo tem de propiciar proximidade e interação.

Na visão desses profissionais, a matéria-prima necessária para conseguir paz e prosperidade para a região está toda lá – a própria rota, com locais reverenciados por pelo menos 3 bilhões de pessoas no mundo e a conhecida hospitalidade do povo. O plano de negócios, no entanto, expressa a visão pragmática que se espera de um americano de Harvard e contabiliza rigorosamente os investimentos exigidos e as oportunidades embutidas na abertura dessa nova fronteira turística.

As credenciais de William Ury representam o bem mais valioso entre os recursos intangíveis postos a serviço do projeto. Reputado internacionalmente como negociador de conflitos, autor de best-sellers sobre o tema e participante das mais inflamáveis mesas de negociação da história recente, ele aplicou no Caminho de Abraão a vivência de quase três décadas de corpo-a-corpo no Oriente Médio.

Além da habilidade de negociador, Ury está colocando na mesa o grande talento para formar alianças. Sob o aval da Universidade de Harvard, onde leciona e também dirige o Global Negotiation Project, ele reuniu um grupo de professores e alunos que desenhou e testou o plano entre 2004 e 2007. E estabeleceu a rede de influência necessária para colocá-lo de pé, uma teia que inclui fundações e ONGs (que garantiram os recursos para a primeira fase), autoridades políticas e religiosas dos países envolvidos (já consultadas e visitadas), grandes empresários (cujo patrocínio será necessário até o empreendimento se tornar auto-sustentável) e o apoio de instituições internacionais, como a ONU e a Liga dos Países Árabes, e de figuras públicas de prestígio, como o ex-presidente americano Jimmy Carter, o Dalai Lama e o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso.

Concretamente, a empreitada consiste em reconstituir o trajeto de 1.100 quilômetros entre as cidades de Urfa, na Turquia, e Hebron-Al Kallil, na Jordânia, que teria sido percorrido pelo patriarca Abraão há mais de 4 mil anos. Ao longo do caminho, que cruza Síria, Israel, Palestina e Líbano, desenrola-se uma seqüência de marcos históricos, religiosos e naturais de tirar o fôlego do mais experiente viajante, a maioria difícil de alcançar.

A inspiração do professor de Harvard ocorreu ao perceber a força simbólica de Abraão para as três grandes religiões monoteístas; foi um passo natural conceituar a jornada do patriarca como um caminho para a paz na região. De acordo com a tradição relatada nas escrituras, Deus recompensou a fidelidade de Abraão concedendo-lhe descendentes já em idade avançada, que povoaram todo o Oriente Médio.

Business plan ecumênico

No plano de negócios apresentado à comunidade internacional, o Caminho de Abraão é descrito como um projeto-âncora apoiado em três pilares – a construção do percurso (que diz respeito aos países e à população local, como infra-estrutura e restauração); o apoio aos viajantes (estrutura fornecida pela indústria do turismo); e a plataforma de serviços (com envolvimento de apoiadores, voluntariado e divulgação). Os idealizadores contam com a sinergia entre esses fatores para garantir o desenvolvimento sustentável da região na fase de implantação do projeto. E então, com todas as condições postas, almejar o objetivo final, de oferecer condições econômicas e sociais para que se possa começar a falar em paz no Oriente Médio.

Às vozes que levantam dúvidas e descrença, os mentores do projeto respondem: tudo será feito com muita negociação e só depois de conseguir o apoio dos governos e das comunidades. A essência do Caminho tem como diretriz obter a colaboração geral e irrestrita da população. Se a iniciativa local não for tão forte quanto a internacional, a missão tende a desandar.
No entanto, a lista de possíveis problemas não termina. Terroristas não aproveitarão o fluxo de turistas estrangeiros para realizar atentados? Será possível evitar o choque cultural entre viajantes e moradores? A partir da experiência da Espanha, é possível saber que condições mínimas são necessárias para que um roteiro complexo como o de Abraão tenha sucesso. De acordo com Antoin Khalil, da associação do Caminho de Santiago, veterano peregrino, a primeira condição é reforçar a percepção de segurança, e isso se faz com informação.

Mesmo se tratando de uma região de conflito, é preciso reduzir ao máximo o grau de incerteza do viajante e permitir um planejamento detalhado do roteiro. “É indispensável ter um guia que mapeie a rota com os mínimos detalhes, quilômetro a quilômetro, e manter informações atualizadas na internet”, ele explica. A segunda condição apontada por Khalil pode ser resumida como fator humano. “Os habitantes dos locais cortados pelo caminho precisam ser seduzidos pelo roteiro”, ele argumenta, “se orgulhar de fazer parte e se preocupar em cuidar do viajante.”

Google Earth e GPS

As duas condições – envolvimento das comunidades locais e informação – estão previstas no estudo de viabilidade do Caminho de Abraão, assim como um código de conduta para prevenir conflitos culturais entre moradores e peregrinos. Além de avaliar o potencial econômico e cultural, a primeira fase da iniciativa dedicou quatro anos a estudar e testar os desafios políticos, logísticos e de segurança do trajeto. Para o projeto-piloto foi escolhido o trecho considerado mais descomplicado: os 120 quilômetros localizados em território jordaniano, que deve ser inaugurado no primeiro semestre de 2008.

Na missão de mapeamento, as equipes responsáveis utilizaram mapas topográficos e as imagens do Google Earth. Cada pedaço do caminho foi conferido por ferramentas munidas com a tecnologia GPS de localização por satélite e um software de sistema de informação geográfica (GIS), utilizados para localizar, verificar e registrar os dados. Todas as informações devem estar reunidas em um guia antes da inauguração da rota em 2008. Até 2012, o plano prevê mais 600 quilômetros mapeados e com infra-estrutura pronta para receber os turistas, com trechos entregues completos a cada seis meses. Após 2012, com o início da Fase 3, seus idealizadores esperam que as metas de implementação tenham sido todas cumpridas – inclusive a extensão do trajeto para Iraque, Egito e Arábia Saudita -- e o projeto caminhe por si.

Para cumprir as metas definidas para os oitos anos cobertos pelo plano (2004-2012), foram previstos investimentos de US$ 50 milhões. Assim como a parte inicial das despesas operacionais foi custeada por doações de instituições e empresários, o Caminho de Abraão manterá a estratégia de funcionar a partir de redes de apoiadores como forma de fortalecer o projeto. Além da contribuição de empresas, instituições e governos, a iniciativa prevê a captação de recursos por meio de produção de filmes e produtos de mídia, eventos e licenciamento de produtos. No entanto, os investimentos diretos em infra-estrutura e na preparação de hospedagens e apoio dependerão dos governos locais e da indústria do turismo. Para o mercado turístico, o Caminho de Abraão pode representar o desbravamento de um novo Eldorado. O projeto tem um apelo globalizado e, nos planos dos idealizadores, os operadores de turismo têm papel estratégico.

Voltando ao Brasil

O papel reservado ao Brasil no empreendimento envolve a mobilização e o engajamento das três comunidades que têm suas raízes no Oriente Médio e convivem sem conflitos no país. Para o advogado Fernando Latorre, negociador internacional convidado pelo professor William Ury para liderar o capítulo brasileiro, essa coexistência é vista como um fator capaz de motivar o apoio internacional. Segundo ele, os principais objetivos da representação do Brasil são “dar apoio institucional, logístico e financeiro para a abertura do Caminho, levantando recursos e atuando para facilitar a construção da estrutura do trajeto”.

De acordo com o representante no país, o apoio institucional já tem prevista para 2008 uma série de atividades culturais conjuntas, que incluem a versão em português do site www.abrahampath.org. “Esse tipo de atividade ocorrerá em todos os países envolvidos como uma forma de manter o projeto em evidência e valorizar a cultura do Oriente Médio”, explica. Além disso, existe a expectativa de que o próprio Caminho atraia muitos brasileiros, curiosos por conhecer suas raízes.

Isso é um começo – e um ponto de partida é o que de mais importante o projeto oferece, segundo seus idealizadores, para construir uma possibilidade de coexistência. Como eles defendem em seu plano: “O Caminho de Abraão não é um debate, uma discussão. É uma oportunidade para caminhar lado a lado, para compartilhar comida e água, para experimentar cansaço e sede juntos, para oferecer ajuda e ânimo, para descansar, rir e construir um lugar baseado no reconhecimento da nossa humanidade comum”.


Roteiro de sonhos

O Caminho de Abraão é uma idealização, já que o trajeto exato seguido pelo patriarca e sua família permanece desconhecido. O projeto tem como espinha dorsal os cinco lugares que tiveram destaque na jornada. Intercalados a eles, encontram-se sítios históricos, religiosos e naturais que fazem parte do imaginário coletivo de grande parte da humanidade. Atualmente, muitas operadoras de turismo especializaram-se em trechos desse caminho, mas a um custo pouco acessível em função das dificuldades já conhecidas.

Urfa, Turquia – Reverenciada como possível terra natal de Abraão (condição que disputa com Ur, no Iraque), a cidade preserva diversos marcos de sua importância religiosa.

Harran, Turquia – A cidade onde Abraão ouviu o chamado de Deus tem sido um ponto estratégico desde os assírios. Os monumentos preservados mostram o papel que teve para os romanos, bizantinos, árabes e cruzados.

Monte Nebo, Jordânia – Neste local, próximo à capital Amã, Abraão foi visitado por Deus e soube que teria um filho de Sara.

Jerusalém, Israel – Centro espiritual das três religiões monoteístas, foi aqui que Abraão ofereceu o filho Isaac em sacrifício.

Hebron, Cisjordânia – Chamada também de Al-Khalil, abriga o túmulo de Abraão e vários marcos sagrados pelas três religiões monoteístas. Está próxima de Belém.

Entre Sanliurfa e Hebron, há mais de mil quilômetros de pura história e beleza. O Caminho de Abraão cruza com paisagens do deserto, montanhas nevadas, visões do Mediterrâneo e as terras das oliveiras. Um percurso no qual se destacam: na Síria, a cidade de Alepo, a Grande Mesquita, a Cidadela, o Castelo dos Cavaleiros (considerada a maior fortaleza do mundo), o Castelo de Saladim, o Castelo Qalaat A Marqab, a Igreja de São Simão e os castelos da Ordem dos Assassinos, e a capital Damasco com a grande mesquita dos Oméias; na Jordânia, a capital Amã e marcos históricos, como Petra, Kerak e Jerash.
mais belas atrações turísticas do mundo.

Fotografia: Cidadela de Amã
Crédito: Jordan Tourism Board North Am

Inspiração espanhola

Ury também teve outra fonte de inspiração, na qual espelhou a viabilidade do projeto, o Caminho de Santiago, na Espanha. Rota de peregrinação desde a Idade Média, o caminho ganhou novo fôlego nos anos 1970 e saiu de modestos 68 peregrinos registrados em 1970 para os atuais 180 mil, vindos de todo o mundo, de acordo com o presidente da Associação Brasileira de Amigos do Caminho de Santiago de Compostela (www.santiago.org.br), Antoin Khalil.
O projeto de Harvard mirou na dinâmica estabelecida pela rota na Espanha para construir sua estratégia de implantação. Primeiro, vieram os viajantes movidos pela religião e pelo espírito de aventura, necessário para enfrentar a precariedade de estrutura. O movimento chamou a atenção de autoridades e empresários que passaram a suprir a rota com albergues e pontos de apoio. A melhora na infra-estrutura atraiu mais turistas, agora também com outras motivações – a paisagem, a história ou o autoconhecimento.

Diante das novas demandas, mais uma onda de investimentos é atraída para o percurso. Locais interessantes que ficavam fora do roteiro acordaram para as possibilidades turísticas e também se equiparam para receber os peregrinos, ao mesmo tempo em que a oferta de serviços se sofistica. Mais viajantes se sentem confiantes para percorrer o caminho. E mais recursos circulam nas economias locais, o que significa mais divisas para a Espanha.

Monte Nebo

Mesquita de Abraão

Cidade de Amã

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