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Graziella Beting, de Paris, com informações de Londres por Tatiana Gonçales
Escapadas no fim de semana, roteiros para conhecer uma cidade de bicicleta, percurso para consumidores ecologicamente conscientes, para amantes de natureza ou de naturismo... Ao passar pela seção de turismo de uma livraria, pode-se constatar que o conceito de guias de viagem está cada vez mais amplo. Ou as obras, cada vez mais específicas. Acompanhando o crescimento da atividade turística no mundo, o comportamento do turista e o estilo de suas viagens, o mercado editorial vive uma proliferação de guias diferenciados, temáticos ou personalizados. Esse crescimento vem acompanhado por uma concorrência jamais vista, e a sensação é de que esse mercado não pára de crescer.
Aquele antigo guia com aspecto de lista telefônica, um livro enorme – e pesado –, cujo tema abarcava um país ou continente inteiro, com centenas de páginas, texto miúdo, longas descrições e poucas imagens, está com os dias contados. Os guias de viagem de hoje são bonitos, coloridos, com rica iconografia sobre o destino, desenhos, plantas, maquetes, fotos de pratos típicos... Seu formato também é variado: dos livros de bolso que não pesam na mala e trazem as informações básicas para uma descoberta bem-sucedida a guias com espiral, plastificados, dobráveis, fáceis de manusear.
Em Paris, a cidade que mais recebe turistas no mundo, os guias de viagem representam um dos setores mais disputados do mercado editorial. Para conquistar o leitor, as editoras estão abusando da criatividade: Paris sobre Patins, Paris para Solteiras, Paris Zen, Paris Retrô, Paris para Namorados, Paris Latina e Ibérica, Paris aos Domingos, Piquenique em Paris... Impossível não encontrar um guia sob medida para cada perfil de turista.
Esse fenômeno editorial pode ser considerado o terceiro grande boom da história dos guias. “Os primeiros surgiram nos anos 1830-1840, com a implantação das estradas de ferro na Europa”, conta Isabelle Bouchard, conservadora da Biblioteca de Turismo e Viagens de Paris. As ferrovias facilitaram a circulação no continente e motivaram a criação do conceito de guia, tal como conhecemos hoje – obras que oferecem ao mesmo tempo informações práticas (horários, preços, indicação de hotéis e restaurantes) e culturais sobre o destino. As principais marcas lançadas nesse período foram Murray, na Inglaterra, Baedeker, na Alemanha, e Joanne, na França (que se transformaria nos Guides Bleus, os Guias Azuis, que existem até hoje, editados pela Hachette).
Porém os guias daquela época eram bem diferentes dos de hoje. “Mais eruditos”, segundo Isabelle. “Eram obras tão ricas e acadêmicas que hoje são fonte de pesquisa para muito historiador de arte.” Depois, explica a bibliotecária, nos anos 1970 houve o lançamento das primeiras obras voltadas a viagens econômicas. O pioneiro desse formato foi o Europe on 5 Dollars a Day, escrito por Arthur Frommer em 1957. Hoje, sua marca Frommer’s conta com mais de 300 títulos. Na França, esse estilo de guia foi fundado pelo Guia do Routard (“routard”: aquele que vive na estrada), que revolucionou o mercado, do qual ainda hoje é o líder. Para se ter uma idéia, o Routard é responsável por um a cada três guias vendidos no país, com 2,5 milhões de exemplares comercializados por ano.
Outro nome importante nesse segmento é a Lonely Planet. Fundada por um casal de mochileiros ingleses em 1972, que decidiu colocar em livro as dicas de sua travessia da Ásia, de Londres rumo à Austrália, a marca tem hoje mais de 500 títulos em inglês, fora as traduções – e foi vendida em outubro para a companhia inglesa BBC.
Se o primeiro Routard, que saiu em abril de 1973, era bastante abrangente – 230 páginas com dicas sobre todo o planeta –, hoje o que se vê nas estantes são guias cada vez mais temáticos, divididos em coleções específicas. “Essa é a principal tendência hoje”, considera Isabelle. Assim, a oferta aumentou tanto que uma biblioteca como a de Paris não consegue mais acompanhar o ritmo dos lançamentos. “Impossível dar conta de tudo”, diz, folheando a pilha de catálogos de editoras sobre sua mesa.
Acervo centenário
A Biblioteca de Turismo e Viagens de Paris é a única do mundo no gênero. Conta com um acervo de 20 mil volumes, com obras que datam de 1890 aos lançamentos mais recentes. Ela nasceu do acervo do Touring Club, associação de velocipedistas fundada em 1890 para estimular o turismo nascente, principalmente o cicloturismo. A biblioteca do Touring, criada em 1899 e reservada aos membros, foi comprada pela prefeitura de Paris e aberta ao público geral desde 1984. Depois de dois anos de reformas, reabriu em setembro deste ano. É um paraíso para pesquisadores, além de ser freqüentada por viajantes em busca de informações sobre seu próximo destino. “Hoje temos em nosso acervo obras raras, até porque ninguém pensa em conservar um folheto turístico”, diz Isabelle.
Lida hoje, a frase de C. M. Gariel, o idealizador da biblioteca do Touring, escrita em 1898, em sua proposta para a criação do acervo, parece profética: “Hoje ainda podemos esperar reunir sem muita dificuldade tudo o que já apareceu sobre essa questão; em alguns anos, será impossível”. Ele estava certo. Quase 220 anos depois, seria impensável reunir numa só biblioteca todos os títulos de turismo publicados no planeta.
Vários motivos explicam essa proliferação. O primeiro, inegável: hoje viaja-se cada vez mais, no mundo todo. Assim, as editoras são desafiadas a oferecer aos leitores mais opções que o roteiro básico tradicional. E é por isso que enquanto as vendas de coleções especializadas vão de vento em popa, a dos guias tradicionais sofre recuo. “Quem vai para Paris pela segunda ou terceira vez está mais interessado em descobrir um restaurante especial do que em ir de novo à Torre Eiffel”, exemplifica Stéphan Szeremeta, diretor dos guias de viagem da editora Petit Futé (“o espertinho”, numa tradução literal). Especializada em turismo e fundada em 1976, a editora conta com mais de 600 títulos em catálogo, e é a quarta do mercado francês. Entre os novos títulos, estão: Paris Bicicleta, Paris Restaurantes, Paris Noite, Paris Baby, Paris Domingo, Paris Espetáculos, Paris Sênior, Paris Moda, etc.
Um exemplo de sucesso nesse filão é a editora inglesa Phaidon, especialista em design e arquitetura, que se associou à revista Wallpaper e se lançou, em 2005, no mercado de guias com a série Wallpaper City Guide. Eles oferecem roteiros voltados para o design nas principais cidades do mundo. “Um novo conceito em guias urbanos, em tamanho de bolso, fáceis de usar e tão discretos que você não vai se sentir como um turista”, como anuncia a editora. Hoje a coleção já tem 40 títulos (São Paulo e Rio de Janeiro incluídos), com mais dez que devem sair até o fim do ano e mais dez em 2008.
Além de viajar mais, o turista do século 21 tem outra característica: passa menos tempo em cada destino. Por isso, as editoras estão criando coleções para viagens de curta duração. Exemplos? A Petit Voyage, da Lonely Planet, lançada este ano, com guias das principais cidades francesas. Menores que um livro de bolso (10x13 cm), são feitos por jornalistas do lugar, com dicas que fogem ao roteiro turístico clássico. A coleção “Um grande fim de semana em...”, da Hachette, cujo tema já se explica pelo título, lançada em 2005, registrou 50% de crescimento nas vendas em dois anos, o que deu um novo fôlego para essa editora que, apesar de líder absoluta do mercado francês, abocanhando 37% das vendas (segundo levantamento do instituto Ipsos), está vivendo queda nas vendas dos seus guias clássicos – em 2006 era responsável por 39% do mercado.
Ora, viagens curtas representam, muitas vezes, a opção por grandes cidades como destino. Foi apostando nisso que a Gallimard criou a coleção Cartoville – lançada no Brasil com o nome Passo-a-passo, pela Publifolha –, dedicada às grandes metrópoles do mundo. É o grande sucesso da editora, que já vendeu mais de 5 milhões de exemplares dessa coleção, sem contar os direitos de tradução para 20 países. A coleção foi criada para atender aos seguintes dados, que a editora levantou com a Organização Mundial do Turismo e operadoras francesas: “O segmento que mais cresce dentro do turismo é o de viagens curtas, de menos de quatro dias de duração, e com isso o turismo urbano cresce 15% ao ano”, conta Nicole Jusserand, diretora editorial dos Guias Gallimard.
Em clima de concorrência acirrada, destinos mal servidos por informações turísticas também tornam-se estratégicos. “Em vez de fazer mais um guia sobre Londres, preferimos investir em destinos sobre os quais não existe nenhum outro guia”, avalia Szeremeta, da Petit Futé. A editora se vangloria por ser a exclusiva (em francês, pelo menos) em mais de 70 destinos, como Mali, Haiti, Colômbia, Bósnia-Herzegovina, Mauritânia ou Patagônia.
As casas editoriais também estão sempre de olho nos destinos que entram na moda. Mas não lançam imediatamente um guia sobre o lugar. Isabelle Bouchard, da Biblioteca de Turismo, nota esse mecanismo. “Reparamos quando um destino entra na moda porque de repente vem um monte de gente aqui perguntar por ele. Mas as editoras aguardam cerca de dois anos, para ver se a moda se confirma mesmo, e só aí lançam um guia”, diz ela. “É muito caro fazer um guia, então as editoras precisam se certificar de que terão esse retorno.”
Prateleiras mais bonitas
Além da quantidade e da variedade, quando se comparam os guias de viagens de décadas atrás com os de hoje, a atual sofisticação gráfica é notável. Cada vez mais bonitos, eles disputam os leitores pelo visual. Os responsáveis por essa verdadeira revolução foram os ingleses da Dorling Kindersley Travel. São eles que fazem os guias da série Eyewitness (no Brasil, Guias Visuais) –, um verdadeiro case de sucesso editorial.
Os primeiros guias visuais da DK foram os de Londres, Paris, Nova York e Roma, lançados em 1993. “Naquela época os guias eram desprovidos de cores e fotos dos lugares que cobriam”, conta Douglas Amrine, diretor de publicidade da DK. “Tivemos então a idéia de fazer um guia que ‘mostrasse’ o que os outros só diziam.” O resultado é conhecido: livros extremamente ricos em imagens, ilustrações, maquetes em três dimensões, plantas e desenhos. A editora inglesa colheu os frutos da originalidade. Quase 15 anos depois, é a número um no mercado internacional, com 40 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, mais de 100 destinos, e tradução para mais de 30 línguas. As últimas foram hebreu e eslovênio.
Na França, a paternidade dos guias visuais é disputada com a Gallimard, que em julho de 1992 colocou no mercado os primeiros números de sua coleção Enciclopédia de Viagem. Eram a adaptação, para o turismo, de uma enciclopédia infanto-juvenil dedicada a temas como corpo humano ou Idade Média. A enciclopédia é um guia cultural – ou seja, com mais informações históricas e artísticas do que práticas sobre o destino –, ilustrada “da primeira à última página”, como diz o slogan da coleção, que não é vendida no Brasil. A série tem hoje 130 títulos, entre eles muitos temáticos, como o “Caminhos de Santiago de Compostela” – um dos best-sellers.
O fenômeno dos guias visuais é tão intenso que forçou coleções centenárias a se adaptar. Os Guias Azuis, da Hachette, e os Guias Verdes, da Michelin, verdadeiras instituições nas estantes de turismo francesas, remodelaram recentemente suas diagramações e, hoje, suas páginas renovadas trazem menos texto e mais fotos de cada destino.
E será que esse mercado não vai saturar? Aparentemente, continua crescendo. Na França, a revista Livres Hebdo lança, todos os anos, um relatório com levantamentos sobre o mercado editorial voltado ao turismo. A última edição, deste ano, revela que em 2006 o país lançou 1.802 novos guias (sem contar as reimpressões). Em 2001 esse número era de 1.285 títulos. A cada ano o mercado evolui, em média, 8%.
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No Brasil, mercado em ascensão
A tradição de organizar a própria viagem a partir de um guia nunca foi muito a característica do turista brasileiro, mais adepto a excursões e passeios organizados por operadoras. Mas esse comportamento parece estar mudando. Pelo menos há um aumento expressivo na oferta de guias vendidos no país.
A Publifolha, líder do mercado, começou a editar guias em 1995, quando lançou os Guias Visuais de Londres, Nova York, Paris e Roma. Atualmente, tem mais de 100 títulos ativos em catálogo, divididos em 15 séries. Recentemente, vem apostando nos especializados. “Com o crescimento do mercado, os guias temáticos devem surgir com mais freqüência, uma vez que um público maior tem demandas diferentes”, considera Luciana Maia, gerente editorial. Exemplos já estão nas prateleiras: Guia de Conversação para Homens Gays em Viagem; Guia de Cruzeiros Marítimos; Guia Paris com as Crianças; ou Fique Zen em São Paulo.
Guias que se propõem a “deixar os lugares mais óbvios – e lotados! – de lado” e oferecer dicas improváveis (como uma loja especial para canhotos em Londres, onde comer javali selvagem no Rio de Janeiro ou um curso para gladiadores em Roma) são a especialidade da Panda Books, que conta com 17 títulos de turismo.
Também novidade nas prateleiras são os guias da Empresa das Artes, um braço da editora Melhoramentos. Repletos de fotografias, têm edições temáticas como o Guia de Botecos de São Paulo, Turismo Ecológico no Rio de Janeiro, ou um guia específico sobre a Estrada Real. Assim como a BEI editora, que começou a editar guias de viagem no final de 2004. Depois de um bem-sucedido Guia do Brasil, lançado tanto no Brasil como no exterior, em versões em inglês, francês e espanhol, a editora está lançando guias específicos de cada região do Brasil. Avançou também nos temáticos, com edições bem trabalhadas sobre o carnaval no Rio de Janeiro, ou Ouro Preto e seus Arredores.
O Brasil não tem um levantamento específico para identificar o número de títulos voltados a viagens, mas segundo o relatório Produção e vendas do setor editorial brasileiro, realizado pela Câmara Brasileira do Livro em julho, foram editados no Brasil, em 2006, um total de 648 títulos na área de artes, lazer e desportos – categoria muito mais ampla, mas que engloba o turismo e os guias. Esses novos títulos representam um total de 393.182 exemplares nas livrarias brasileiras. |
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De Sherlock Holmes ao explorador contemporâneo
Considerada a maior do mundo especializada em turismo e cartografia, Stanfords é hoje uma das livrarias mais antigas da Inglaterra. Desde sua fundação em 1853 pelo cartógrafo Edward Stanford, passou por várias fases e foi mudando de perfil de acordo com a demanda de mercado. Inicialmente, como explica o escritor Peter Whitfield no prefácio de seu livro The Mapmakers – A History of Stanfords, Stanfords começou como uma companhia de cartografia, acompanhando o desenvolvimento da indústria de mapas na Inglaterra, em meados do século 19. Atualmente, no entanto, a história é um pouco diferente.
Situada bem no centro de Londres, a unidade principal da Stanfords (existe uma outra loja na cidade de Bristol) reúne um estoque com mais de 40 mil títulos – entre guias e literatura de viagem –, além de 250 mil mapas para todas as finalidades, de caminhar a voar, cobrindo dos lugares mais inóspitos às principais capitais do mundo. De acordo com Andrew Steed, diretor de vendas da Stanfords, a livraria só cresceu e mudou de perfil justamente para se ajustar às necessidades do consumidor. “A história da livraria confunde-se com a trajetória da sociedade britânica”, define. Ele explica que “a partir dos anos 1970 a economia do Reino Unido passou a prosperar, e viajar deixou de ser artigo de luxo. Com isso, o crescimento da publicação de guias e mapas mais voltados para o turista tomaram corpo e consolidaram-se como itens fundamentais para o viajante”.
Mas é a reputação da Stanfords, entretanto, que chama mais a atenção. O poder aquisitivo e o interesse em viajar, juntamente com a paixão por mapas do povo inglês, a tornaram uma das mais tradicionais companhias inglesas. Indicada inclusive a Sherlock Holmes como fonte de referência para a solução do mistério em O Cão dos Baskervilles, uma das mais famosas obras de sir Conan Doyle. “Somos super bem recomendados pelas celebridades mais respeitadas dessa área no país. Escritores best-sellers como Michael Palin, Bill Bryson, John Simpson e Willian Darymple são nossos clientes”, conta, orgulhoso, o gerente de produto, Alex Stewart.
Recentemente, uma reforma no site da Stanfords (www.stanfords.co.uk) fez com que toda a seleção dos produtos oferecidos ficasse à disposição de qualquer viajante, inglês ou não. “Hoje vendemos para qualquer lugar do planeta pela internet. Essas vendas hoje representam cerca de 10% do total”, afirma Steed. Esse total gira em torno de 6,5 milhões de libras por ano, sendo que mais de 50% são gerados pela venda dos guias turísticos. Quando perguntado sobre planos para o futuro, Steed dispara: “Ouvi falar que ainda não existe nenhuma loja com esse perfil em Nova York.” (Tatiana Gonçales, de Londres) |
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Para saber mais
Biblioteca de Turismo e Viagens: 6, rue du Commandant Schloesing, Paris. (+331) 4704-7085. Stanfords: 12-14 Long Acre, Covent Garden, Londres. (+020) 7836 1321. |
Imagens: Divulgação
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