:: Principal :: Agosto de 2007

Turista na sua cidade
No coração do Mediterrâneo


Divulgação

Reduto de artistas de Hollywood e de estudantes de intercâmbio, o arquipélago de Malta tem cenários deslumbrantes, povo hospitaleiro e uma herança histórica de 7 mil anos

Michel Gorski é arquiteto e editor do site Arquiteturismo (www.arquiteturismo.com.br)

Localizado no meio do Mar Mediterrâneo, o menor país da União Européia – 93 quilômetros ao sul da Sicília e 288 quilômetros ao norte da África – é freqüentemente visitado pela arquiteta Fiorella Baggio, cônsul-geral da República de Malta em São Paulo. Pouca gente ganha uma herança tão rara quanto ela, que, ao substituir o pai na representação do arquipélago em São Paulo, passou a trabalhar aonde antes só ia a passeio.

“É um lugar cheio de tradições, onde se toma o chá das cinco, a pontualidade é sagrada e 97% dos habitantes vão à missa no domingo em uma das 365 igrejas locais. Muitas exibem obras de arte, como a Catedral de Saint John, com o quadro da decapitação de São João Batista, de Caravaggio, de 1608.” Assim Fiorella começa a explicar como um dos locais mais antigos do mundo, com edificações anteriores às pirâmides do Egito, consolida-se como um destino turístico. “A capital, Valletta, possui um conjunto de 320 construções declarado pela Unesco como patrimônio da humanidade e uma peculiaridade: com 400 mil habitantes, tem a maior densidade demográfica da Europa.”

A próxima etapa para facilitar a integração européia e o turismo será a despedida da moeda local, a lira maltesa, e a adoção do euro, facilitando a relação com o mundo, em detrimento de mais uma tradição. O turismo é visto como um fator de equilíbrio da economia local, muito dependente da importação de alimentos, energia e até de água. Os últimos dominadores, os britânicos, deixaram para Malta o seu segundo idioma (o primeiro é o maltês), que ficou tão bem “ilhado” que gera outra importante atividade econômica, de certa forma também associada ao turismo: o intercâmbio internacional de estudantes interessados em aprender inglês.

Malta, Gozo e Comino, as principais ilhas do arquipélago, são bem diferentes entre si. Enquanto as primeiras são populosas, a pequena Comino é praticamente desocupada e, por isso, muito utilizada para filmagens, outra das peculiaridades locais. Fiorella adora dizer que todo mundo já viu Malta no cinema: “São dezenas de filmes que usaram as ilhas como locações, como Tróia, O Gladiador, O Conde de Monte Cristo e as últimas cenas de O Código Da Vinci”, diz. Porém, o mais curioso é que o cenário do filme Popeye, do diretor Robert Altman, acabou se transformando num bem-sucedido parque temático.

Durante o verão, o arquipélago recebe uma população flutuante de cerca de 50 mil pessoas, a maioria originária de cruzeiros marítimos saídos principalmente da Itália, da Grécia e da Tunísia, em geral em roteiros de um dia. Os turistas de maior permanência são estudantes, praticantes de esportes náuticos ou os que se alojam em iates, como fez recentemente Nicolas Sarkozy, logo após sua eleição para a presidência da França.

Para a arquiteta, o bom é curtir devagar, andando e se perdendo nas sinuosas ruas dos aglomerados urbanos de Malta e Gozo, onde se sente a riqueza da herança histórica de 7 mil anos desse país que foi invadido inúmeras vezes por povos com culturas diferentes. Assim sucederam-se em Malta, nos últimos cinco séculos, a dominação pelos famosos Cavaleiros da Ordem de São João, os construtores das fortalezas, um curto período napoleônico e os ingleses por 164 anos, até 1979.
O relacionamento comercial com o Brasil é, em geral, triangulado pela Itália. Não existe representação diplomática brasileira em Malta, o atendimento é feito pela embaixada da Líbia. Já no Brasil, existem dois consulados que representam o arquipélago, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro.

O efêmero movimento turístico e o desconhecimento da cultura do arquipélago no Brasil inspiram Fiorella a preparar, para 2008, uma semana maltesa em São Paulo. “Há muita curiosidade sobre as ilhas, suas histórias e a culinária mediterrânea maltesa”, conclui.

Deixando de lado os aspectos mais oficiais de sua função, a representante da república maltesa destaca atividades que exerce como turista quando visita Malta, sua velha conhecida (ver boxe). Em cada local vê atrações, que podem ser desde uma sorveteria até uma vista estonteante do azul do Mediterrâneo. Fiorella perambula a pé, de ônibus ou de carro procurando sempre lugares diferentes, se perdendo por ruas que não domina bem, para desvendar componentes de uma longa história, fascinante e difícil de ser entendida. Mas uma advertência da cônsul mostra bem o espírito conservador dos malteses: “É proibido andar sem camisa, mesmo no calçadão à beira-mar. Calção e biquíni são usados só na praia mesmo”.

“Malta é, decididamente, um ambiente diferente, onde a vida é cara. Mas num restaurante, na mesa ao lado, pode estar uma pessoa que você conhece e não sabe bem de onde. Depois descobre que era a Sharon Stone participando de uma filmagem, como aconteceu comigo”, conta Fiorella. Outros detalhes curiosos merecem atenção e estão em toda parte. Como os antigos ônibus e as cabines telefônicas inglesas, os puxadores das portas no centro de Valletta, que outrora foram de ouro, as alcaparras que nascem nas rochas e o tempero de cominho nos campos de Comino, que deram o nome à ilha. “Tudo sempre sob os olhos protetores de Osíris, que decoram as coloridas embarcações locais.”


Roteiro sugerido
As atividades preferidas da arquiteta e cônsul Fiorella Baggio, que também se encanta com a exatidão dos horários em que os ônibus passam nas paradas, mescla passeios, comidas e artesanato. Um de seus hábitos é passear no calçadão em Sliema e degustar um sorvete diet, tipo Ferrero Rocher, na Gelateria Lungomare, de uma família maltesa de origem italiana. Outro passeio acontece aos domingos: a feira de pescadores da baía Mosaklokk, onde é possível comprar produtos de consumo e lembranças (bordados, licor de cactos, azeite especial, queijo de cabra, azeitonas, torrone e sal marinho retirado da baía de Xwejni na costa setentrional de Gozo).

Um ponto marcante é a cidade de Mdina, antiga capital, conhecida como a “cidade silêncio” por sua tranqüilidade. É possível escutar os próprios passos enquanto se caminha pelas construções da vila medieval, antiga fortificação, onde acontecem encenações em períodos de festas. Em Comino, a Lagoa Azul é um trecho de parada obrigatória de veleiros. Como o nome já dá uma pista, o local fica entre a ilha e uma pedra e é um dos mais bonitos do arquipélago com o seu mar azul.

Em Gozo, a primeira capital, não deixe de visitar as ruas estreitas com vento soprando forte, que nos remetem à Idade Média. Vale também uma conversa com os habitantes, extremamente simpáticos e hospitaleiros. Para quem gosta de mitologia, Fiorella indica um roteiro interessante na cidade: seguir os passos da ninfa Calypso, que seduziu Ulisses e o manteve prisioneiro por sete anos em uma caverna localizada em um ponto de que se pode avistar uma das mais encantadoras baías do Mediterrâneo.

Outros pontos bastante visitados são a Janela Azul, uma rocha em forma de arco esculpida pelo vento, e a Igreja de Mostra, famosa por ter a terceira maior cúpula do mundo. Durante a Segunda Guerra Mundial, uma bomba caiu no local durante uma missa onde estavam 300 pessoas. Apesar da devastação do lado de fora da construção, o artefato não estourou. “Dizem que foi um verdadeiro milagre”, lembra Fiorella.

Já o artesanato típico de Malta que não pode faltar em sua mala é um “Luzzu”, réplica das embarcações que têm um olho de Osíris pintado na proa para espantar os maus agouros; os bordados “Pizzilla”, com formas da famosa estrela de Malta; e os vidros coloridos com técnica semelhante à usada em Murano.

Na gastronomia, ela indica os restaurantes Razzet L-Antik, em Qormi, um templo antigo com receitas maltesas originais situado em um edifício de 400 anos; Luciano, em Valletta, que serve comida típica maltesa e italiana, e La Dolce Vita, em St. Julians, o mais sofisticado, onde você poderá encontrar algum artista de Hollywood.

Fiorella Baggio
Foto: Miriam Pacheco

Copyright © Jobson Brasil - Todos os direitos reservados. All rights reserved.
>>