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Camila Lucchesi
“Lá vai o trem com o menino Lá vai o trem sem destino Lá vai a vida a rodar Pro dia novo encontrar Lá vai ciranda e destino Correndo vai pela terra Cidade e noite a girar Vai pela serra, vai pelo mar”
(Trecho de O Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa-Lobos e Ferreira Gullar)
Os acordes remetem a uma realidade esquecida e saudosa para muitos, uma época em que o trem era o mais importante meio de transporte de passageiros. Desde a implantação da primeira ferrovia no Brasil, no final do século 19, as velhas locomotivas atravessavam serras, vales, pastagens, passavam por cima de pontes e uniam cidades transportando pessoas saudosas, ansiosas pela chegada ou tristes pela recente despedida, todas com os rostos grudados nas janelas à espera de um aceno. As estações se firmavam como pontos de encontro importantes, e cada chegada era um grande acontecimento social, comemorado com roupa de festa. Os trens também foram muito cantados pelos compositores brasileiros. Uma das melodias mais conhecidas sobre o tema foi composta pelo maestro Heitor Villa-Lobos, inspirado nas viagens que ele fez no início da década de 1930 para difundir sua arte.
Apesar de todo o romantismo envolvido, com o passar dos anos o modal foi caindo em desuso. O golpe final foi dado na década de 1950, na gestão do então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, que investiu em rodovias como a melhor opção para o transporte de cargas e de passageiros. De lá para cá o setor, responsável pelo desenvolvimento e urbanização de cidades em todo o mundo, foi quase que completamente dizimado. Dos cerca de 42 mil quilômetros de trilhos que percorriam o Brasil, restam em operação pouco mais de 27 mil quilômetros, sendo que menos de 10% desse número é destinado aos trens de passageiros. “O que a gente observa hoje é uma conseqüência dessa má opção, desse caminho desvirtuado que o Brasil, através dos sucessivos governos centrais, promoveu”, analisa Sávio Neves, presidente da Associação Brasileira dos Operadores de Trens Turísticos e Culturais (ABOTTC) e diretor do Trem do Corcovado. A entidade, criada em 2000, reúne 22 associados e luta para resgatar e incentivar o incremento do turismo ferroviário.
Um dos maiores problemas do setor é o investimento envolvido na ampliação da malha ferroviária, muito superior ao custo de implantação de uma rodovia. Outro entrave foi desencadeado durante as privatizações das operadoras das linhas férreas. “De forma geral, as linhas compartilhadas foram previstas para operar apenas o transporte de cargas e tornou-se economicamente inviável a abertura de horários para passeios”, revela Adonai Arruda Filho, vice-presidente da ABOTTC e diretor da curitibana Serra Verde Express.
Luz no fim do túnel
Apesar dos obstáculos, ainda há esperança para o turismo ferroviário brasileiro. No ano passado, segundo dados da associação, os operadores transportaram mais de 3 milhões de passageiros e a expectativa para 2007 é crescer 20%. Segundo Neves, o governo federal também está começando a entender a importância da reativação de ferrovias estratégicas para atender a um país de dimensões continentais. “Hoje temos assento no Conselho Nacional de Turismo, principal fórum de discussão turística brasileira, onde podemos expor nossos problemas e reivindicar soluções.”
Fora da esfera pública, a associação tem uma campanha permanente de revitalização de trechos ferroviários desativados que serão transformados em novos equipamentos turísticos. O estudo de viabilidade está sendo feito em diversos locais do país, liderado por organizações não-governamentais (ONGs), organizações da sociedade civil de interesse público (OCIPs) e empresas privadas que identificam boas oportunidades de investimento nos projetos. A reunião em uma associação, além de fortalecer a causa, também ajuda a profissionalizar o setor, que hoje tem um convênio com o Sebrae para qualificação da gestão dos operadores. Outra iniciativa foi a criação de uma cadeia comercial na qual um operador turístico vende o passeio do outro, além do incentivo à comercialização do produto trem agregado a outros atrativos pelas agências de viagens.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), responsável pela homologação das operações dos trens turísticos de passageiros, deu autorização definitiva para 30 trechos, alguns com freqüência não regular ou que circulam apenas em um período determinado por ano. As opções estão espalhadas pelo país, com maior concentração nas regiões Sudeste e Sul.
Opções por todo o país
Em tempos de crise aérea, os passeios de trem surgem como alternativas divertidas, principalmente para famílias com crianças. A opção número um é o Trem do Corcovado, no Rio de Janeiro, que liga o bairro do Cosme Velho à estátua do Cristo Redentor, a 710 metros de altura. O trem transporta cerca de 600 mil pessoas anualmente e, com a recente eleição do monumento como uma das novas maravilhas do mundo, espera-se um crescimento na procura em torno de 30%. Inaugurada em 1884 por D. Pedro II, essa estrada de ferro de pouco mais de 3 mil metros de extensão foi a primeira criada e instalada exclusivamente para a atividade turística no país. Inicialmente puxado por locomotivas a vapor, o sistema foi eletrificado em 1910 e já transportou passageiros ilustres como o papa João Paulo II e a princesa Diana.
Apesar de ser um dos principais apelos do produto, o passeio não se resume ao turismo religioso. Quem opta por viajar no trem pode vislumbrar a riqueza da mata atlântica, já que os trilhos passam por dentro da Floresta da Tijuca. E para que esse atrativo não se acabe, 25% do ingresso é revertido para a manutenção e conservação do meio ambiente.
Na região Sul, o Serra Verde Express lidera as preferências com o trecho de Curitiba – Morretes – Paranaguá. Construída no século 19, a estrada de ferro tem 110 quilômetros de extensão. O trajeto, que pode ser feito de trem convencional ou em litorinas – automotrizes feitas de metal e movidas a diesel –, passa por túneis, cachoeiras entre a mata atlântica, pontes e viadutos. No ano passado, a empresa contabilizou 140 mil passageiros, número acima da média, que costuma ficar por volta dos 135 mil.
Segundo o diretor, 45% do público é encaminhado à Serra Verde por agentes e operadores de viagens. Do total, 19% são turistas estrangeiros e, entre os brasileiros, a liderança é dos paulistas (35%), seguidos por catarinenses e paranaenses, ambos com cerca de 20%. A empresa conquistou recentemente a concessão do transporte de passageiros na ferrovia por mais dez anos. Para 2007, Arruda Filho espera um crescimento entre 5% e 10% e planeja investimentos em modernização da frota e estações.
Outra opção na região Sul é a maria-fumaça que passa por Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa, na rota da uva e do vinho. Desde 1993, quando foi reaberto para a atividade turística, o percurso de 23 quilômetros é animado com tradições italianas e gauchescas, passando por construções históricas, vinícolas e paisagens.
Em São Paulo, um dos roteiros mais procurados é o da maria-fumaça que liga Campinas a Jaguariúna, percorrendo pouco mais de 20 quilômetros. Administrado em comodato pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), o trecho foi inaugurado em 1875 e hoje tem objetivo cultural: os monitores especializados contam histórias da sociedade da época, especialmente dos antigos barões do café. O Hotel Matiz Jaguariúna, da Hotelaria Brasil, oferece pacotes especiais de hospedagem e passeio de trem desde abril deste ano. “A busca está razoável e aumentou consistentemente por conta das férias escolares”, afirma Paulo Cestari, gerente-geral do hotel.
Já em Minas Gerais, uma das opções é a viagem de 13 quilômetros de São João del Rey a Tiradentes, realizada pela Ferrovia Centro Atlântica (FCA), que, apesar de ser uma concessionária privada de transporte de cargas, recebeu autorização especial da ANTT para operar o transporte de passageiros nesse trecho. O passeio é como uma viagem no tempo – especialmente devido à locomotiva que puxa a composição, fabricada no final do século 19 – e passa por cenários históricos como o Rio das Mortes, palco da Guerra dos Emboabas (1707-1709), e a Serra de São José, área de preservação ambiental. A média é de pouco mais de 7 mil passageiros por mês. Segundo a assessoria de imprensa da FCA, a empresa não trabalha com catálogos de vendas em agências, mas pretende realizar ações nesse sentido a partir do ano que vem. Atualmente a divulgação é feita em eventos culturais nas duas cidades.
Outro passeio bastante procurado é o Trem da Vale, ligando Mariana a Ouro Preto. A Fundação Vale do Rio Doce, em parceria com a Ferrovia Centro-Atlântica e com o Santa Rosa Bureau Cultural, revitalizou os 18 quilômetros do trecho ferroviário, as quatro estações do percurso, a locomotiva e os seis vagões.
O Nordeste também tem turismo ferroviário, e o passeio mais tradicional acontece apenas nos fins de semana de junho, mês em que acontecem os festejos de São João. O Trem do Forró, como é conhecido, parte de Recife e vai até o Cabo de Santo Agostinho embalado com muito forró. Os dez vagões têm bancos laterais para que o centro se transforme em uma pista de dança e em cada um há um trio de instrumentistas e serviço de bar. A composição conta com banheiros, serviços de enfermaria e apoio logístico. “A volta, que antes era feita no próprio trem, agora é realizada de ônibus para maior conforto dos foliões”, conta Anderson Pacheco, presidente da Serrambi Turismo, empresa que administra o trem e pretende lançar saídas semanais a partir de setembro. Além de fazer a alegria dos amantes do ritmo, o trem gera postos de trabalho fixo para 110 profissionais e é responsável pela criação de cerca de 300 empregos indiretos. Em junho deste ano, mais de 7 mil pessoas passaram pela composição.
Viagem de incentivo, festa de casamento, coquetel de lançamento de produtos, café da manhã com parceiros. Os trens também estão preparados para o público corporativo e comportam todo tipo de evento, com conforto e originalidade. No Rio de Janeiro, o transporte ao Cristo Redentor pode ser feito a bordo do exclusivo Trem Vip, que conta com cenografia especial, música ao vivo, guia de turismo e serviço de catering. No Paraná o serviço segue a vontade do freguês. Muito procurados por empresas para comemorações de fim de ano, os roteiros noturnos proporcionam passeio de trem combinado com um jantar em Piraquara, a 40 quilômetros de Curitiba. “No final de 2006, um laboratório aproveitou a realização de um evento médico em Curitiba para fretar o trem inteiro e fazer uma festa cigana para os 500 médicos convidados”, conta Arruda Filho. Por meio da operadora turística do grupo, a BWT, também são disponibilizados roteiros com atrações diferenciadas agregadas, como passeios de bicicleta, caminhadas pela mata e até descidas de rafting.
O futuro sobre trilhos
Uma das grandes apostas para o segmento é o Great Brazil Express, trem de luxo que ligará Castro a Cascavel (PR), passando perto de Foz do Iguaçu. O roteiro foi criado em parceria com a Transnico International, empresa belga especializada na comercialização de trens de luxo, e será lançado no final de setembro no Top Resa Travel Market Show, em Deauville, na França. No Brasil, o anúncio oficial será feito durante a feira da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav), em outubro. A viagem inaugural deve ser feita no início de novembro, mas ainda depende da agenda da ministra Marta Suplicy, que confirmou presença e aprovou o produto, indicando-o como uma excelente iniciativa do setor privado.
O trem de luxo será comercializado a partir de abril de 2008 e fará apenas quatro viagens mensais, transportando 44 passageiros por vez em um passeio de um dia e meio. O pacote que será vendido no exterior terá de oito a dez dias de atividades no Brasil, envolvendo também o transporte aéreo e rodoviário. O turista chegará ao Brasil pelo Rio de Janeiro, voará para Curitiba e iniciará o trajeto ferroviário de 500 quilômetros até Cascavel passando por diferentes cenários naturais. Quando acabarem os trilhos, ônibus farão a extensão a Foz do Iguaçu, ponto final da aventura.
Além de ajudar a trazer ao Brasil um perfil de turista estrangeiro que ainda não existe no país – o aficionado de trens, geralmente com alto poder aquisitivo –, o roteiro movimentará a economia de diversos municípios do interior do Paraná, como Guarapuava, que servirá de parada para dormir ao final do primeiro dia de viagem, Ponta Grossa, Irati e Cascavel, onde serão feitas as principais refeições. “Embora os vagões tenham serviço de bordo requintado, decidimos que as cidades deveriam se beneficiar do trem e não ser apenas pontos de passagem. Temos tido muito apoio das prefeituras, que estão reformando as estações e prevendo a apresentação de danças folclóricas para recepcionar os turistas,” comemora o diretor.
Outra idéia que volta a ser debatida é a implantação de um trem de alta velocidade ligando São Paulo ao Rio de Janeiro. O polêmico projeto, analisado há mais de dez anos, tomou força com a atual situação do tráfego aéreo e deve ser licitado até o início de 2008. O governo anunciou recentemente que o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDS) fará uma espécie de auditoria nos estudos para implementação, verificando a viabilidade econômica do projeto. Se sair mesmo do papel, o trem-bala terá capacidade para transportar 855 passageiros entre as capitais em cerca de 88 minutos, a quase 300 quilômetros por hora. A previsão para a execução da obra é de sete anos
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