:: Principal :: Agosto de 2007

Lá Fora
Missão Houston

A chamada Cidade Espacial tem dado boas lições de como capitalizar turisticamente seus feitos históricos e, ao mesmo tempo, potencializar outros nichos de atrações culturais
Fernandes Simonetti

Ser conhecida por um fato histórico ou por possuir uma instituição que se perpetuou pelo mundo. Eis uma grande vantagem mercadológica para uma cidade que pretende gerar mais receitas por meio do turismo. Tal vantagem pode se agigantar ainda mais quando o destino detém uma atividade que povoa o sonho de crianças e adultos: a formação dos astronautas e a pesquisa de viagens espaciais. Houston, metrópole importante do estado americano do Texas, já tinha esse tesouro para ser explorado como marketing turístico desde a década de 1960, quando o homem pisou na Lua pela primeira vez, e quando se ouviu a famosa frase de Neil Armstrong, em 20 de julho de 1969: “Houston, aqui é a Base Tranqüilidade. A águia pousou”.

No entanto, a metrópole, com sua segura vocação para o mundo dos negócios durante as últimas décadas – no setor petrolífero, principalmente –, está a apenas cinco anos realmente vendendo o destino como Cidade Espacial (Space City), tendo como referência a antiga sede do Nasa Johnson Space Center. Se os lançamentos dos ônibus espaciais estão hoje concentrados no estado da Flórida, no Cabo Canaveral, Houston mantém sua força emblemática por seu ainda ativo centro de treinamentos de astronautas e seu centro de controle de todas as missões espaciais. Por essa razão, o Space Center Houston recebe em média 700 mil turistas de todas as partes dos Estados Unidos – e de todos os cantos do mundo.

“Promover a cidade como ‘Space City’ nos últimos cinco anos tem ajudado muito o trabalho do trade local, pois obviamente é a atração mais conhecida. É algo que faz as pessoas se lembrarem da cidade e que se torna uma grande razão para visitar Houston”, explica Jorge Franz, diretor executivo de turismo do Greater Houston Convention and Visitors Bureau. Ele acrescenta que o Space Center da Nasa é também o grande chamariz para que os turistas conheçam outras atrações da cidade.

Jorge Franz não teme qualquer efeito colateral na estratégia de centrar as ações na marca espacial de sucesso – com a possibilidade, por exemplo, de a atração principal ofuscar os outros atrativos turísticos do destino. “Não diria que é difícil vender atrações como teatros, museus de arte e esportes, mas que é imprescindível divulgar aos viajantes todas essas coisas maravilhosas. Num futuro próximo, nossa intenção é realizar uma nova campanha promocional focando em tudo isso que Houston tem a oferecer”, explica o executivo.

Enquanto o trade turístico de Houston trabalha em sua estratégia anual de incrementar o turismo de lazer com a força espacial de sua história, o turismo de negócios – que representa 70% da indústria turística – não tem do que se queixar. O segmento é a alavanca principal para que a ocupação hoteleira seja a mais alta em mais de 25 anos, e propensa a crescer ainda mais nos próximos anos. Segundo relatório da empresa texana de consultoria PKF, a ocupação hoteleira em Houston cresceu de 60,8% em 2003 para 68% em 2005 – uma recuperação completa do declínio acentuado após o fatídico 11 de setembro de 2001. No ano passado, mais de 9,9 milhões de pernoites foram adquiridos por visitantes – representando US$ 605 milhões de faturamento bruto para a rede hoteleira.

O potencial da Cidade Espacial é mais que evidente no turismo de lazer, e a divulgação internacional contribuirá, com certeza, para que a cidade receba muito mais que a média atual de 31 milhões de pessoas por ano. Para os turistas brasileiros, Houston mostra-se uma cidade menos estressante que outras metrópoles e com facilidades que dificilmente não despertarão o interesse desse público, ávido pelas novidades da terra de Tio Sam.

Um dos trunfos turísticos é a oferta de vôos diretos e diários de São Paulo (saindo do Rio de Janeiro) até seu moderno aeroporto. A companhia responsável por essa operação é a Continental Airlines. “O público executivo ainda representa nossa maior demanda atualmente. No entanto, apostamos também que esse viajante de negócios acaba trazendo sua família para lazer e compras. E este é um interessante nicho para nossa operação em Houston”, analisa Pete Garcia, vice-presidente para a América Latina da Continental. Para os vôos Rio-São Paulo-Houston, a companhia opera com Boeing 767-400ER, com 35 assentos na classe Business First e 200 na classe econômica.

Além do atraente vôo diário (cerca de 10 horas de duração desde São Paulo), Pete Garcia cita como vantagem o setor de imigração do Aeroporto Internacional George Bush, que dispõe de 24 cabines para entrevistas, evitando o ambiente tumultuado e longas filas como ocorre na concorrente Miami. Focado no público executivo e no turista de classe A e B, a Continental aumentou a oferta na BusinessFirst (dez assentos a mais que no vôo para Nova York). “As pessoas querem pagar mais para ter a diferenciação de serviço a bordo ou em terra. Assim é o perfil do brasileiro que vai a Houston”, acrescenta Garcia. Além da visita à Nasa, o executivo cita a diversidade gastronômica e de museus da cidade como boas alternativas de lazer. “E os centros de compras, é claro” – lembrando da atividade predileta do turista brasileiro.

A concorrência com a fortíssima Nova York – um dos principais destinos a receber turistas brasileiros – não parece algo impensável para a tranqüila Cidade Espacial, se depender do planejamento obstinado de seu convention bureau. Para começar, Houston aposta na tradição da cultura caubói – algo que não pode ser encontrado em Nova York. “Contamos com o maior rodeio do mundo. Além disso, muitas pessoas de fora não têm idéia de que a cidade tem o segundo maior distrito de teatros dos EUA – atrás apenas do nova-iorquino – e um bairro com 15 museus de nível internacional. Sem contar que Houston está muito perto do golfo do México – o que permite até embarcar daqui para um cruzeiro pelo Caribe”, compara Jorge Franz, revelando o entusiasmo de um texano orgulhoso de sua terra.

O espaço, a fronteira final

O astronauta está no imaginário de qualquer garoto que tenha lido um pouco sobre ficção científica ou assistido a um dos inúmeros filmes já realizados. Portanto, não é surpresa que o grande núcleo espacial – a Nasa (em inglês, National Aeronautics and Space Administration) – venha despertar tanto interesse em crianças e adultos. E por essa razão a visita ao Johnson Space Center é mais do que obrigatória para quem chega à cidade texana. Seu lugar na história mundial teve início em 1965, quando o mundo parou para assistir à transmissão da chegada do homem à Lua. Desde então, as equipes de Controle de Missões de Houston têm sido vitais para o sucesso dos vôos espaciais, como os das missões Apollo e das mais de 100 viagens de ônibus espaciais.

Localizado 37 quilômetros ao sul de Houston, o Johnson Space Center (batizado em homenagem ao presidente americano Lyndon B. Johnson) é a base de treinamentos de todos os astronautas dos Estados Unidos e de outras nações. É também a base de controle para todos os testes de vôos dos EUA para o espaço, desde as pesquisas até o monitoramento das operações. Apesar de a NASA manter 11 instalações nos Estados Unidos, incluindo o quartel-general em Washington, o JSC de Houston é a maior de todas, em atividade desde1964, e mantendo atualmente cerca de 17 mil empregos, entre engenheiros, cientistas e pessoal administrativo.

Uma das atrações principais do Space Center – o centro de visitantes – é o tour às dependências do Neutral Buoyancy Laboratory (Laboratório de Flutuação Neutra), onde os jovens astronautas realizam todos os treinamentos e testes de preparação para as viagens espaciais. O turista poderá também ver de perto um dos foguetes das Missões Apollo – o Saturno V – e fazer um passeio pelas instalações da Nasa, com acesso ao histórico Centro de Controle de Missões.

Na Galeria do Astronauta, é possível acompanhar a “moda” dos trajes espaciais de todas as décadas e, para as crianças, brinquedos educativos simulam situações vividas pelos astronautas. Finalmente, o Blast Off Theater garante uma jornada de sons e imagens que simulam um lançamento real de um ônibus espacial.


Herói brasileiro em Houston

Marcos Pontes entrou para a história nacional como o primeiro brasileiro a viajar ao espaço a bordo da nave russa Soyuz TMA-7. Ele permaneceu por dez dias com americanos e russos na estação espacial internacional. Depois de divulgado seu nome para a missão em 1998, o tenente-coronel da Força Aérea Brasileira se mudou para Houston com a mulher e os dois filhos, onde realizou um treinamento de dois anos no Johnson Space Center – em preparação para o lançamento na Rússia, no dia 4 de abril de 2006. O cosmonauta brasileiro falou com exclusividade à revista Host.

Host - A Cidade Espacial sempre fará parte de sua vida?

Pontes - Estou morando em Houston desde 1998, quando iniciei o treinamento na Nasa. E ainda não sei por quanto tempo ficarei. Com certeza, pelo menos enquanto o Brasil permanecer no programa da Estação Espacial Internacional, devo ficar por aqui assessorando a Agência Espacial Brasileira (AEB).

Host - Além da Nasa, onde você mais gosta de ir? Você recomenda alguma atração turística ou restaurante?

Pontes - Houston é uma cidade interessante em termos culturais. A cidade oferece museus, teatros, shoppings e uma grande variedade de bares e restaurantes típicos. Recomendo o Galeria Mall como ponto de início para o visitante de primeira viagem.

Host - Na sua opinião, por que muitas crianças – e adultos – sonham em ser astronautas? Por que esse fascínio?

Pontes - Tudo o que é desconhecido do homem passa a ser imaginado, então se especula muito sobre como seria a experiência. Acho que isso tudo contribui para esse fascínio.

Host - Você acredita que um dia o Brasil – caso o programa espacial decole em Alcântara – pode transformar essa experiência em um turismo educativo para as crianças, com um centro de visitação, a exemplo de Houston?

Pontes - Este é um dos grandes sonhos: construir um programa espacial eficiente e respeitado em nosso país. Em primeiro lugar, precisamos investir muito em educação no país, acompanhada de desenvolvimento em ciência e tecnologia. Pois não adianta ter pessoas com qualificação se não houver empregos disponíveis. Ciência e tecnologia são os caminhos para novas empresas e novos empregos.

Host - Você acha que o turismo científico pode ser uma ferramenta para ajudar na formação dos jovens?
Pontes - Sem dúvida. Usar a fascinação do espaço como ferramenta para trazer jovens para o caminho certo é uma tática antiga nos EUA e outros países desenvolvidos na área. Podemos seguir esse exemplo no Brasil. Com certeza terei muito a contribuir com isso, e espero ter a chance de implementar essa idéia. Quem sabe eu não seja um dia selecionado para ser o presidente da AEB!
Como chegar
Vôos: A Continental Airlines é a única companhia que opera vôos diretos, saindo do Rio de Janeiro, com escala em São Paulo. Informações sobre tarifas pelo (11) 2122-7500.

Pacotes:
Agaxtur: (11) 3067-0900
Designer Tours: (11) 2181-2929
Flot: (11) 4504-4500 e (51) 3395-2085
Nascimento Turismo: (11) 3156-9944 e (13) 3228-9900
STB: (11) 3038-1555
Soft Travel: (11) 3017-9999 e (19) 3254-6456
Trade Tours: (11) 3257-9788 e (21) 2240-8500

Para saber mais:
www.visithoustontexas.com
www.spacecenter.org
www.marcospontes.net
www.kennedyspacecenter.com

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