:: Principal :: Agosto de 2007

Turismo Sustentável
Desafios do tamanho de São Paulo


Foto: Iara Venanzi
Consagrada como o maior centro de eventos e negócios das Américas, a capital paulista precisa unir esforços e garantir investimentos para consolidar um novo perfil turístico

Ediane Tiago

De nostálgica terra da garoa, São Paulo transformou-se na metrópole brasileira do trabalho. Sem aparentes atrativos turísticos – por competir com cidades que abrigam belíssimas praias, chapadas e serras –, a cidade resolveu utilizar o que tem de melhor para atrair turistas: a vocação para os negócios. Foi justamente essa vocação que garantiu à cidade o título de 18a capital de eventos e negócios do mundo, a primeira das Américas, nas avaliações da International Congress and Convention Association (ICCA). A pujança é confirmada pelos números. Segundo a empresa de turismo da cidade, a SPTuris, a atividade turística paulistana movimenta anualmente R$ 8 bilhões e gira os motores de 56 setores da economia. Só os eventos realizados em terras paulistanas faturaram R$ 2,4 bilhões em 2006.

Para se ter uma idéia da força da metrópole nesse segmento, um levantamento feito pelo núcleo de estudos avançados em turismo e hotelaria da Fundação Getúlio Vargas revelou que as 80 maiores empresas do setor de turismo no país faturaram R$ 25,5 bilhões em 2005. Se esse desempenho é bom para os turistas, é ótimo para a população local. Além de gerar 500 mil empregos em São Paulo e ser responsável por cerca de 5% do PIB da capital, o setor recolheu mais de R$ 45 milhões em imposto sobre serviço (ISS) só nos primeiros cinco meses de 2007. “Esses são os números oficiais. Se levarmos em conta que 60% do faturamento do setor é informal, temos um mercado muito maior”, comenta Caio de Carvalho, presidente da SPTuris.

Consolidada na área do turismo de negócios, a capital paulista quer mais e pretende ser um dos principais destinos de turismo e lazer do Brasil, encantando com suas atrações os mais de 9 milhões de visitantes que recebe todos os anos. Para vencer a concorrência com os recursos naturais, a cidade aposta na diversidade, na gastronomia e na cultura. Quem chega a São Paulo pode aproveitar a infra-estrutura disponível para os eventos, visitar museus, fazer compras, comer em ótimos restaurantes, conhecer uma escola de samba e até visitar uma tribo indígena na Ilha de Bororé, no extremo sul da cidade. “A capital paulista está percebendo que o negócio do turismo vai além do segmento de negócios”, afirma José Bento Desie, da área de desenvolvimento territorial do Sebrae São Paulo.

De acordo com ele, a cidade está amadurecendo para a oferta de atrações turísticas, pacotes e produtos que podem aproveitar o grande potencial gerado pelo recebimento de turistas. “A maior dificuldade já vencemos, que é atrair o turista. Ele vem a São Paulo de qualquer maneira, o desafio é fazê-lo ficar mais”, argumenta.

Seguindo exemplos

Para conquistar novos mercados, no entanto, será necessário unir esforços para eliminar gargalos e convencer os visitantes de que há muitas coisas boas a fazer na cidade. O trânsito é intenso, a sinalização turística não existe e a falta de planejamento e de continuidade das políticas públicas atrapalha o avanço do setor. Além disso, a cidade padece do caos aéreo e dos problemas básicos de infra-estrutura registrados em todo o país e enfrenta mazelas comuns às grandes metrópoles: violência, poluição, desigualdade social e dificuldades para locomoção. “A qualidade de vida da população local tem impacto sobre o turismo. Para uma cidade ser agradável, é necessário melhorar a qualidade do ar, reduzir o trânsito e a violência”, defende o empresário Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos e ativista do Movimento Nossa São Paulo.

A inspiração do movimento do qual Oded faz parte veio de iniciativas como as realizadas na cidade de Bogotá, na Colômbia, que envolveu toda a sociedade na construção de políticas públicas balizadas por metas claras e acompanhadas por indicadores de resultados. Dessa forma, a capital colombiana conquistou melhorias significativas na qualidade de vida de seus habitantes e reaqueceu o setor turístico. De quebra, trouxe para a cidade investimentos na área de alta gastronomia.

Em São Paulo, além de eliminar os gargalos, o setor de turismo terá muito trabalho para oferecer novos serviços aos visitantes. Com foco no turismo de negócios, as empresas são especialistas em deixar quem participa de eventos e feiras à margem dos problemas da cidade. A violência, por exemplo, não assusta esse tipo de turista, que vem apoiado por pacotes que incluem traslado, hospedagem e serviços. “Cerca de 80% dos visitantes vêm a trabalho para São Paulo. Então eles sofrem mais com a infra-estrutura para trazê-lo à cidade. Depois não enfrentam problemas para freqüentar o evento”, explica Toni Sando, diretor do São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPCVB).

Mas, diante da oportunidade de vender outros produtos turísticos para esse público, a cidade está mudando o comportamento em relação a outros segmentos do turismo. “A praia do paulistano é a cultura. Para atrair público, é preciso investir no receptivo”, reforça Carvalho, da SPTuris. Com estratégias focadas no turismo de lazer e de cultura, as agências podem aproveitar todo o potencial da cidade para vendê-la, em vez de focar seus esforços na oferta de pacotes para outros destinos. “A regra era receber o turista em São Paulo e enviá-lo para um final de semana em outra cidade. Mas temos condições de mantê-lo aqui, satisfazendo suas expectativas”, diz Carvalho.

Melhorar a receptividade também significa sinalizar as atrações da cidade. A SPTuris já mapeou 139 pontos culturais e turísticos e pretende espalhar 600 placas para indicá-los ao turista. Outra questão pendente é a modernização do Parque Anhembi, o maior centro de eventos e convenções da cidade, que precisa de reformas, novo sistema de ar-condicionado e ampliação de espaço. Para esse projeto, a SPTuris deve contar com R$ 30 milhões, divididos entre a prefeitura e a verba do Ministério do Turismo, que deve participar com R$ 14 milhões. “Somos bons na área de eventos, e para manter a liderança é preciso investir também nessa área”, destaca o executivo da SPTuris.

Compromisso com a sustentabilidade

Ele ainda ressalta que a melhoria do receptivo é importante para acompanhar a mudança que está acontecendo no turismo. “O visitante quer vivenciar a rotina das cidades.” Em metrópoles como São Paulo, é possível se infiltrar na vida do cidadão comum e freqüentar locais que não são apenas destinados a turistas. “Ir a um restaurante e ser tratado como um cidadão comum é um desejo do visitante”, comenta.

Outro ponto a favor no receptivo da cidade é o fato de ela ser um pólo cultural. São Paulo abriga peças de teatro, exposições, shows, bares e restaurantes que garantem a efervescência da estada. De acordo com o SPVCB, mais de 600 peças de teatro são realizadas por ano na cidade.

Com tantas opções, Sando, do SPVCB, ressalta que São Paulo é uma cidade para ser degustada aos poucos e, por isso, merece investimentos também na capacitação dos profissionais que têm contato com os turistas. Além de divulgar espetáculos, restaurantes, eventos culturais e áreas de lazer nos hotéis e em centros de convenções, o SPVCB tem investido em especialização, a exemplo do curso dirigido a taxistas, que ensina como atender bem e mantém os motoristas informados sobre as opções que a cidade oferece. No primeiro semestre deste ano, a entidade conclui oficialmente a primeira etapa do projeto, com a formação de 180 motoristas de cooperativas, táxis de luxo e comuns. “Montamos um curso que prevê a visita dos taxistas aos pontos turísticos da cidade. Eles precisam conhecer bem São Paulo”, afirma Sando. Outra estratégia que tem dado resultado é a divulgação dos espetáculos para esses motoristas. “Eles podem indicar os shows e peças e também fugir do trânsito do local quando precisam levar um cliente à região do evento.”

Mais do que capacitar a população e os profissionais envolvidos diretamente com o setor de turismo, a cidade deve ter um compromisso com a sustentabilidade da atividade para garantir o futuro. Essa é a visão de Desie, do Sebrae São Paulo. “A sustentabilidade tem de fazer parte do negócio”, defende. Ainda de acordo com ele, os projetos serão sustentáveis se levarem em conta os aspectos sociais, econômicos, culturais e ambientais em sua concepção, isso seguido, é claro, de muita ética e transparência. “Trata-se de uma mudança de postura radical para enquadrar a atividade turística ao novo perfil do visitante”, conta, explicando que o turismo está deixando uma era de contemplação para o turismo de sensações. “Quem viaja quer experimentar, sentir, e não apenas olhar uma vista bonita”, afirma.

Roteiros diferenciados

Como exemplo, ele cita projetos montados em São Paulo em parceria com Sebrae, SPTuris e comunidades. Um deles é o SP Sampa, que é capaz de fazer com que o carnaval perdure o ano inteiro e gere renda e emprego para as comunidades ligadas às escolas de samba. Com piloto na zona norte, o projeto já envolve cinco escolas (Mocidade Alegre, Unidos de Vila Maria, Rosas de Ouro, Peruche e X-9 Paulistana) e promove o carnaval como um produto. A idéia é levar o turista para as quadras e deixá-lo vivenciar o que é uma escola e entender mais sobre o carnaval. “Profissionalizar a atividade turística é abandonar a idéia de que as atrações estão prontas para receber o turista. É preciso criar opções focadas neste público”, conta Desie, lembrando que o turista quer uma programação e, ao visitar uma escola de samba, pretende entender sobre o funcionamento, assistir a uma apresentação e entrar em contato com a comunidade. “Não basta levá-lo e abandoná-lo na roda de samba.”

Outro roteiro de destaque, montado com a ajuda do Sebrae, está voltado para os amantes do ecoturismo e inclui um pacote extremamente inusitado para uma metrópole. Os visitantes podem conhecer o modo de vida de uma aldeia guarani e passear de escuna pelas águas da represa Billings, na zona sul da capital. Com foco em sustentabilidade e geração de renda para uma população marginalizada e carente, o projeto leva o turista para a Ilha de Bororé, a 25 quilômetros do centro da capital paulista. Ao chegarem à ilha, os visitantes se deparam com a aldeia krukutu e participam de trilhas, assistem a apresentações de canto e dança e conhecem o artesanato local. Planejado e bem estruturado, o passeio, além de trazer renda para a comunidade, ajuda a preservar a cultura e as tradições. “Investir em turismo é investir em preservação do patrimônio cultural. Temos de reproduzir isso para todos os segmentos.”

Os planos das entidades ligadas à atividade turística em São Paulo são ambiciosos e prevêem a criação de roteiros capazes de explorar a arquitetura, as artes, a fé e todas as opções escondidas nas movimentadas ruas da metrópole. Nem só de negócios viverá o turismo paulistano, e as oportunidades surgirão para todos os tipos de público. “Somos especialistas em atender o turista de negócios e o de classe A. Mas podemos vender produtos para aqueles visitantes que ficam em hotéis menores e mais baratos. Quanto vale uma visita guiada ao Teatro Municipal para aquele visitante que chega do interior e, muitas vezes, vai embora sem conhecer um pouco da cidade?”, questiona Desie.


Tratamento para aumentar a auto-estima

Para atrair turistas e promover seus atrativos de cultura e lazer, a cidade de São Paulo terá de se aplicar para resolver uma série de problemas comuns às metrópoles. “São Paulo se desenvolveu de uma forma insustentável, sem respeitar o meio ambiente, o patrimônio histórico e o espaço público, afetando de forma negativa a qualidade de vida da população”, alerta o empresário Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos e ativista do Movimento Nossa São Paulo.

Para piorar o cenário, a cidade vive os desafios das grandes metrópoles localizadas em países em desenvolvimento e amarga problemas como deficiências na educação, desigualdade social e violência urbana. Somam-se aos gargalos o trânsito caótico e a falta de políticas públicas para promover um desenvolvimento mais saudável. “A cidade foi feita para abrigar carros, e não pessoas. A poluição em São Paulo mata 4 mil pessoas por ano”, conta Oded.

A solução para resgatar a cidade dos males do desenvolvimento insustentável, segundo o executivo, está em organizar a sociedade civil para elaborar, acompanhar e avaliar políticas públicas, promovendo os valores do desenvolvimento sustentável, da ética e da democracia participativa. Essa é a missão do Movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade – cuja função é construir uma força política, social e econômica capaz de comprometer a sociedade e sucessivos governos com uma agenda e um conjunto de metas, oferecendo melhor qualidade de vida a todos os habitantes da cidade. “Temos de levantar indicadores, acompanhar as políticas públicas e controlar os resultados. Só assim teremos uma cidade agradável para cidadãos e visitantes”, dispara Oded.

O índice de vulnerabilidade juvenil (IVJ), medido pela Fundação Seade na Região Metropolitana de São Paulo entre 2000 e 2005, é uma prova de que o acompanhamento de resultados garante mais eficiência nas políticas públicas. A pesquisa constatou que o acesso ao ensino médio contribuiu para a redução da vulnerabilidade dos jovens na região. Segundo os resultados, o indicador passou de 70 para 51 pontos no período medido, sendo que a redução foi maior nas áreas mais pobres. O relatório aponta que o aumento da freqüência ao ensino médio entre jovens na faixa etária de 15 a 17 anos foi o maior responsável pelo resultado.

Ainda de acordo com a Fundação Seade, o grau de escolaridade também contribui para a redução de casos de gravidez na adolescência. No período medido, a taxa de fecundidade em adolescentes de 14 a 17 anos decresceu de 38 para 35 nascimentos em cada grupo de mil mulheres. Mais uma vez, a redução foi mais intensa nas regiões mais pobres. Indicadores como esses são bem-vindos na hora de planejar o orçamento da cidade e sinalizam os pontos que precisam ser melhorados ou continuados

Para saber mais

Movimento Nossa São Paulo: www.nossasaopaulo.org.br e (11) 3894-2400
São Paulo Convention & Visitors Bureau: www.visitesaopaulo.com e (11) 3289-7588
SPTuris: www.spturis.com e (11) 6226-0400
Sebrae São Paulo: www.sebraesp.com.br e 0800-7280202

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