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Entrevista
Rumo ao Oriente



Ralf Aasman, diretor da Emirates Airline no Brasil, fala sobre o início das atividades no país de uma das mais bem-sucedidas empresas da aviação mundial e sobre a consolidação de um novo destino turístico

Liana Amaral

Nem tudo são más notícias no conturbado mercado aéreo brasileiro. A boa-nova vem do longínquo Dubai – mais de 14 horas de vôo –, principal centro comercial e o segundo maior dos sete emirados que constituem os Emirados Árabes Unidos. É de lá que, no próximo 30 de setembro, parte o vôo inaugural da Emirates Airline rumo ao Aeroporto de Cumbica, inaugurando no mercado brasileiro a primeira linha aérea a ligar sem escalas São Paulo, Brasil e a América do Sul ao Oriente Médio.

No comando da operação brasileira de uma das mais bem-sucedidas companhias aéreas do mundo, reconhecida pelo alto padrão de seus serviços, está Ralf Aasmann. O diretor-geral da Emirates no Brasil vem de uma experiência de quase 20 anos na Lufthansa, onde ocupou os cargos de gerente-geral para os principais clientes da América Latina e de diretor de vendas e marketing no Brasil.

De olho no calendário, iniciado em 1 de janeiro deste ano, Aasmann assumiu a responsabilidade de ter tudo pronto para o início das operações no Brasil no primeiro dia de outubro. Isso incluiu desde a instalação do escritório sediado em São Paulo, a infra-estrutura no aeroporto e a contratação de pessoal até a burocracia de registros nos diversos órgãos reguladores. Dentro da rotina da companhia, o prazo de oito meses pode ser considerado um privilégio. “Normalmente, a implantação de um novo destino na Emirates leva de dois a três meses. Nosso prazo foi considerado ótimo para um melhor planejamento e para poder colocar tudo funcionando. Mas a quantidade de detalhes a ser observados é imensa e me fez valorizar, como nunca, o trabalho em equipe”, diz Aasmann.

Para se instalar em seu 60o país de destino, a Emirates conta com uma equipe brasileira de 45 profissionais, freqüência de seis vôos semanais, operando com dois novíssimos Boeings 777-200LR, com capacidade para 266 passageiros mais 18 toneladas de carga, além do conforto de serviços inéditos no país. Como o traslado de ida e volta do aeroporto oferecido a passageiros da primeira classe e executiva em carros exclusivos, dentro de um raio de 70 quilômetros de São Paulo.

Na entrevista a seguir, Aasmann fala da implantação da operação brasileira da Emirates, da atuação de profissionais brasileiros e das perspectivas que um novo destino pode trazer para o mercado de viagens no Brasil.

Host – Por que a Emirates optou pelo Brasil para iniciar suas operações na América do Sul? Houve alguma pesquisa de demanda no país?

Aasmann – Na verdade, tudo começou com a visita do presidente Lula aos Emirados Árabes em 2003. A empresa passou a cogitar uma ligação mais direta entre os dois países e realizou alguns estudos. A decisão foi tomada há pouco mais de um ano, levando-se em conta que o Brasil é o país mais importante da América do Sul e também o mercado de países próximos como Argentina e Chile. Vale lembrar que São Paulo é o segundo destino da empresa nas Américas, após Nova York. Em dezembro, têm início os vôos para Houston.

Host – Há algum foco principal para o mercado brasileiro?

Aasmann – Não focamos exclusivamente um tipo de cliente. Teremos passageiros em viagens de negócios não só para o Oriente Médio, como para a Índia e países asiáticos, como em viagens de lazer. Temos de ter um mix de passageiros. Nosso produto tem oito lugares na primeira classe, 42 na executiva e 216 na econômica. Isso seis vezes por semana.

Host – Mas os serviços oferecidos na primeira classe e executiva são um diferencial atraente para as viagens de negócios...

Aasmann – Sem dúvida. Não existe nada semelhante à nossa primeira classe, por exemplo, que dispõe do que chamamos de suítes individuais, em que o passageiro pode manter sua privacidade para relaxar, dormir, trabalhar. O serviço de bordo, também na executiva, é individualizado, com o cliente escolhendo o horário em que deseja ser servido, com um menu com mais opções, além do serviço de deslocamento em carros exclusivos entre aeroporto e cidades. Na econômica, oferecemos telas de plasma em cada assento, um diferencial também nessa classe, e uma oferta de mais de 600 canais de entretenimento e vídeo. O vôo até Dubai é longo, é preciso oferecer ocupação e conforto aos passageiros.

Host – Qual a expectativa de ocupação para essa nova linha?

Aasmann – Vamos fazer o possível para ter nossos vôos cheios. Prevemos inicialmente uma ocupação por volta de 70%. Para isso, também consideramos o aquecimento atual na demanda por vôos internacionais. Vamos poder atender o passageiro que busca destinos finais na Ásia, Índia e mesmo em alguns pontos da Europa. Ele terá mais uma opção aérea, via Dubai, que oferece conexões muito rápidas. A Emirates pretende tornar Dubai um hub mundial. O aeroporto é moderníssimo e atraente, com conexões rápidas. Só no primeiro semestre, registrou um movimento de mais de 13 milhões de passageiros. Num percurso entre o Brasil e a China, por exemplo, o passageiro ganha tempo e conforto num vôo via Dubai.

Host – Já existe uma demanda expressiva de viajantes brasileiros para o Oriente Médio?

Aasmann – Sabemos que existe uma procura grande de vôos para esses locais. E também muita curiosidade sobre Dubai, sobretudo no segmento turístico. Isso também é resultado de uma ação do emirado na promoção do destino e em divulgá-lo na mídia. Minha perspectiva é de que cerca de 30% de nossos passageiros terão Dubai como ponto de destino. Outro dado importante vem da Organização Mundial do Turismo, que estima que o Oriente Médio é o destino que mais cresce no mundo. A previsão é de que em 2015 será o quinto lugar mais procurado do planeta.

Host – Como Dubai vem conquistando o status de destino turístico?

Aasmann – A partir de um determinado momento, a família regente do emirado teve a percepção de que o petróleo é um recurso finito e de que a economia local deveria desenvolver novas bases. O governo trabalhou com grande visão de futuro nessa direção, tirando proveito do clima e da posição geográfica, investindo para dotar a cidade de infra-estrutura e atrações de lazer, estimulando o turismo de negócios. A expansão da própria Emirates, que em 22 anos de operações tem vôos diretos para 92 cidades nos cinco continentes e uma frota de 103 aeronaves em contínua expansão, é um reflexo dessa opção.

Host – E a companhia aérea compõe um grupo formado por outras empresas na cadeia do turismo...

Aasmann – O Grupo Emirates, que pertence ao governo de Dubai, conta ainda com a maior operadora turística do Oriente Médio, a Emirate Holidays, que também atua em conjunto com a Embratur na promoção do destino Brasil nesses mercados. Além disso, o grupo mantém negócios nas áreas de turismo receptivo e hotelaria. É preciso dizer que Dubai oferece experiências e atrações inusitadas. De passeios no deserto a uma estação de esqui com direito a neve; da arquitetura inédita e serviços exclusivos do hotel Burj Al Arab às promoções do Dubai Shopping Festival e do Dubai Summer Surprise. Pode-se dizer que é um destino de luxo, mas de um luxo que pode ser acessível, com preços competitivos com os de outras capitais do mundo.

Host – A presença de brasileiros nas atividades da Emirates já era uma realidade antes mesmo de a empresa voar para o Brasil. Por quê?

Aasmann – Há mais de três anos a empresa conta com profissionais brasileiros entre seu pessoal de bordo, administrativo e em serviços de solo. Hoje, são cerca de 180 pessoas, entre elas as duas primeiras mulheres pilotos da empresa. A maioria desses profissionais atua nas tripulações de cabine. A empresa tem uma força de trabalho com mais de 100 nacionalidades. Os brasileiros também têm a reputação de simpatia, atenção e alto-astral no serviço. E fazem isso de forma espontânea. Eles transmitem naturalmente o conceito de que o passageiro é muito importante para nós.

Host – No seu caso, como vê a tarefa de implantar as operações da empresa no país a partir do chão?

Aasman – É algo totalmente diferente dentro da minha experiência. Trabalhar numa empresa já estruturada, em que as coisas funcionam automaticamente, é muito diferente, não há comparação. O desafio é estar sempre atento a uma infinidade de detalhes. Nos primeiros quatro meses do processo, minha base era em casa. Isso me fez valorizar como nunca o trabalho em equipe. Por outro lado, existe a gratificação de estarmos criando a nossa própria estratégia, reunindo experiências diferentes, criando a nossa forma de trabalhar adequada à estratégia da empresa.

Host – Qual será a estrutura de comercialização no Brasil?

Aasmann – A Emirates é uma companhia aérea “agency friendly”. O agente de viagem é muito importante como canal de distribuição de nosso produto. Também vamos ter outros meios de comercialização, como atendimento ao cliente em nosso escritório em São Paulo, um call center próprio, venda via internet, para atender, por exemplo, o cliente que deseja fazer seu próprio plano de viagem. Mas nossa intenção é trabalhar fortemente com as agências em todo o país. São elas que estão onde o cliente está, que conhecem seu perfil.

Host – Já estão previstas ações de marketing e de comunicação do produto?

Aasmann – Estamos justamente afinando o planejamento entre as agências de publicidade e de relações públicas e a própria Emirates. Temos um orçamento de US$ 3 milhões a ser investido nessa área até março de 2008. Já temos algumas ações de publicidade em andamento e iniciamos uma seqüência de eventos dirigidos aos agentes de viagem em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades. Queremos que eles sejam os primeiros a conhecer e sentir o produto. Todo o esforço de comunicação pretende trazer o destino Dubai e nossas outras opções para o conhecimento do público brasileiro. Para que o viajante tenha mais uma opção.

foto: Leonardo Rodrigues

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