tamanho da letra : imprimir

Personagens do Brasil

Chiquinho de Igatu

DSC_1223

 

Ele é um dos mais importantes personagens do vilarejo, localizado na Chapada Diamantina, Bahia. Ir a Igatu e não dar dois dedos de prosa com esse guia, que é grande contador de causos, é o mesmo que jamais ter feito essa viagem
Por Guilherme Padilha

Raizeiro, grande conhecedor de plantas medicinais, mestre de obras, dono de bar, trilheiro, corretor de imóveis nas horas vagas, Chiquinho de Igatu é o guia turístico mais querido e famoso da região – ele já foi até figurante no filme O Homem Que Não Dormia, de Edgar Navarro.
Como se não bastasse, é também exímio contador de causos. Não há quem vá para aquelas bandas e não procure por ele. “Tem gente aí que fala que foi o primeiro a guiar aqui em Igatu. Mas quem começou mesmo esse negócio de guia turístico fui eu, há 28 anos”, garante. E assim engata uma das mais deliciosas histórias…
Chiquinho de Igatu conta que estava no garimpo quando ouviu o pedido de socorro. “Falei pro meu companheiro, o Raimundo: ‘Vamos lá ajudar’. Mas ele não quis ‘Que nada! Eles podem matar a gente.” Chiquinho decidiu ajudá-los sozinho. “Rapaz, foi minha salvaguarda!”, conta. “Eles eram muito simpáticos e pediram para eu levá-los até Mucugê. Disseram que pagavam muito bem. Olha, eu estava assim, precisando de dinheiro para fazer a feira. Tava garimpando sem comida e o Raimundo também. Convenci meu companheiro e ele aceitou”.
E não é que ele desandou a contar histórias enquanto pelo caminho? “Fui falando… ‘Aqui eu garimpei, dobrei dali praqui e peguei oito diamantinhos, tudo fininho. Peguei o carumbé, pus areia de peneira e fui passando… aí mostrei: ‘É ouro ou não? E eles: ‘É. É ouro mesmo, Chiquinho’. Aí, fui contei sobre o garimpo e eles até quiseram fazer uma fotografia junto comigo.”
Foi assim que Chiquinho viu que sua vida poderia mudar. “Um dos homens falou: ‘Estamos fazendo levantamento do Parque Nacional e quando ele voltar a funcionar você pode ser guia de Igatu’”, recorda. Mas a ideia não foi assimilada logo de cara. “Pensei: ‘Que diabo é guia, o que é que eu vou guiar?’. Fiquei matutando. Paramos para comer. E eu me animei: ‘Tá vendo, Raimundo? Eu já tô de barriga cheia. A gente tava com fome, mas agora dá para subir a ladeira de boa’”, diverte-se contando que conduziram o trio até perto de Mucugê.
Passados 15 dias, um carro para perto dele. “‘Onde é que eu acho um Chiquinho? Ele é baixinho, magrinho e cabeludo’. Eu tirei o chapéu da cabeça e desparafusei o cabelo e disse: ‘Tá falando com ele’. E o homem me contou que estava atrás de mim para guiar o grupo. Rapaz! Não é que me pagaram bem?! No fim do dia cheguei em casa, joguei o chapéu no chão: ‘Muié! Não vou garimpar mais não. O dinheiro que a gente tem não dá para fazer nada. Agora eu vou é guiar’. Não me arrependo. E eu vou é morrer nessa vida, só guiando. Não quero mais outro trabalho.”

Comentários


Deixe um comentário




O comentário não representa a opinião da revista Host&Travel; a responsabilidade é do autor da mensagem